
A segunda temporada de 'Cavalos Lentos', uma das melhores séries da temporada, terminou recentemente. Sobre por que passar as festas com essa história de espiões fracassados é a melhor decisão do ano novo – na nossa resenha.
A primeira temporada terminou não exatamente com um triunfo, mas com uma vitória dos cavalos lentos – os espiões fracassados, exilados do serviço operacional para o Slough House, para que ali não causassem danos ou pedissem demissão. Apesar de alguma incompetência, coube a eles, na temporada passada, a responsabilidade de salvar a Grã-Bretanha, e, no geral, não saiu mal. Os nacionalistas de extrema-direita foram derrotados, a chefe do grande escritório do MI-5, Diana Taverner (Kristin Scott Thomas), agora deve um favor ao chefe do Slough House, Jackson Lamb (Gary Oldman), e a Grã-Bretanha pode, por enquanto, dormir tranquila.
Mas o sono não dura muito – a segunda temporada chegou seis meses após a primeira e ofereceu uma ameaça mais séria que um bando de nazistas. Um agente aposentado do MI-5 morreu num ônibus enquanto seguia, por algum motivo, um homem careca. Todos aceitam a versão de morte por maus hábitos, exceto Jackson Lamb – ele também fuma, bebe, não se lava direito e, segundo suas próprias palavras, está 'em ótima forma' – então os cavalos lentos iniciam sua própria investigação e se deparam com uma célula de 'cigarras'.
As cigarras (ou, como a agência britânica as chama, leões mortos) são uma mítica rede de espiões da KGB espalhada pelo Reino Unido, à espera de uma ordem para entrar em ação. Mas a KGB já não existe há muito tempo, e a existência de tal rede foi considerada um mito, mas, como se viu, em vão. Os inimigos da Grã-Bretanha não dormem, conspirações são tecidas, a vida segue.
É nesse entrelaçamento de teses que se sustenta o enredo de 'Cavalos Lentos' – seja um esboço conspiratório que a seita dos 'soviéticos' (a URSS existe! A KGB está ativa!) apreciaria, seja um drama de produção sobre perdedores que precisam salvar um mundo condenado sem ter a qualificação necessária. As tramas dos filmes de Bond são refilmadas aqui com ironia e melancolia sartrianas. Para a geração atual de roteiristas do gênero de espionagem, já está claro que o Estado é ruim, a vida não é grande coisa, a era dos agentes especiais em ternos caros não passou exatamente, mas se dissolveu – junto com os próprios agentes, afogou-se no pântano aconchegante do cotidiano.
Chegou aos cinemas o premiado em Cannes 'A Decisão de Partir', do clássico coreano Park Chan-wook. Este belo neo-noir dificilmente se tornará um grande sucesso, no entanto, é um filme sutil e inteligente sobre amor, dever e s
Abrir material
Mantendo uma trama de espionagem perfeitamente coerente, 'Cavalos Lentos' ao mesmo tempo zomba do gênero, lembra seus melhores exemplares e os coloca num contexto digno da série 'The Office'. Nesse sentido, é difícil evitar paralelos com 'Intriga Internacional', a grande comédia de espionagem da qual parecem ter saído tanto Lamb quanto seu agente mais competente, mas, claro, longe dos topos, Cartwright (Jack Lowden). Do 'Queime Depois de Ler' dos Coen, eles pegaram ministros idiotas e chefes tolos, e das partes da franquia Bond em que atuou Roger Moore, a sensação de que espionagem é uma atividade predominantemente circense (aliás, não é à toa que nos romances de le Carré o MI-5 é codificado como 'O Circo').
Em meio a toda essa bagunça, destaca-se, claro, o impressionantemente profissional e rabugento Jackson Lamb. Na verdade, o carisma de Oldman nesse papel é o que, de certa forma, prende à tela. Todo o resto aqui também é maravilhoso, mas o sucesso de 'Cavalos Lentos' está inextricavelmente ligado à habilidade de Oldman de resmungar tristemente e olhar perplexo para uma máquina de lavar. Seu personagem, que há muito, ao que parece, esqueceu a existência do chuveiro e do trabalho operacional, nos momentos mais inesperados se mostra mais inteligente, mais rápido e, no geral, mais puro – não de corpo, mas de alma – do que seus oponentes. 'Cavalos Lentos' reinventa o agente especial britânico que, tendo perdido o brilho, o smoking, as ambições de vida, forçado a enterrar velhos amigos e enfrentar agentes russos com sobrenomes ridiculamente hollywoodianos (Popov! Nevsky! Onde está você, general Gogol?), torna-se finalmente um herói verdadeiramente interessante.
Além disso, o principal que 'Cavalos Lentos' conseguiu (e o que é especialmente surpreendente, considerando duas temporadas em seis meses) é que, com os mesmos ingredientes de sucesso da primeira temporada – Gary Oldman genial, roteiro inteligente, agentes fracassados, intriga de peso – agora temos diante de nós uma série não menos notável, mas completamente diferente. A primeira temporada é uma fábula triste sobre como estamos separados do triunfo dos nacionalistas de extrema-direita por um par de intrigas, a maldade dos chefes de espionagem e a estupidez dos próprios nacionalistas; a segunda é uma história já bastante ousada sobre como a política é, no fundo, um conjunto de velhas mágoas, e a tão badalada guerra dos serviços secretos, descrita com tanta pompa na franquia Bond e nas inúmeras 'Missões Impossíveis', é um eterno acerto de contas, uma vingança não tanto por missões fracassadas, mas por uma vida fracassada.
Uma coisa permaneceu inalterada: os conspiradores foram derrotados novamente não pelo heroísmo da nação, mas pela sua banalidade, pela melancolia cotidiana que nenhum plano, por mais sério que seja, de interferência na política interna é capaz de dissipar – se ao menos os próprios ministérios finalmente interferissem nela, então que pelo menos alguém o faça. À banalidade do mal em 'Cavalos Lentos' se opõe um bem comum e muito condicional, e esse confronto dominical de dois yokozunas é o melhor que se pode ver na televisão agora.
Comentarios
0Aún no hay comentarios.
Inicia sesión para participar en la conversación.