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Em 14 de outubro, nos cinemas estrangeiros e no serviço online Peacock, ocorreu a estreia do filme 'Halloween Ends' — a nova parte da icônica franquia slasher. O terceiro filme de David Gordon Green garante ao público que Michael Myers está se desped...

'Halloween Ends' já é a décima primeira vez (e isso sem contar os dois remakes de Rob Zombie). Ao longo de onze filmes, a franquia passou por muita coisa, mas agora nos prometem que é isso, que Michael Myers vai se aposentar de vez (afinal, 65 anos já é idade avançada, até por lei está na hora). 

Em 2018, David Gordon Green zerou todos os feitos do maníaco e manteve no cânone apenas o original de John Carpenter, lançado em 1978. Em homenagem ao quadragésimo aniversário, Green lançou uma nova trilogia sobre o assassino de máscara branca (e macacão de mecânico) com uma faca de cozinha. O retorno a Haddonfield há quatro anos foi recebido de forma mais positiva pela imprensa e pelo público (79% de aprovação da crítica e 71% do público no Rotten Tomatoes), mas em 2022, como quarenta anos atrás, estamos novamente assistindo a um 'Halloween' que não é sobre Myers (a não ser com ele e sem assassinos mascarados) e nos perguntando como, na terceira parte, tudo desandou de novo. 

Qual é a história?

'Halloween Ends' (como é estranho isso soar) começa com um prólogo. Em Haddonfield, já faz um ano que ninguém ouviu falar de Michael Myers (James Jude Courtney e Nick Castle). Ele desapareceu naquela mesma noite em que os moradores decidiram que eram capazes de fazer justiça com as próprias mãos contra ele. A cidade aos poucos se recupera dos choques, mas o nome do Bicho-Papão ainda está na boca de todos. Na véspera do Dia das Bruxas, a babá Corey Cunningham (Rohan Campbell) se envolve acidentalmente na morte de uma criança de quem cuidava. E embora o incidente seja claramente um acidente, Haddonfield não perdoa o rapaz e o transforma em um pária, tornando-o um novo alvo de ódio. 

Três anos depois, Corey, agora um sujeito reprimido e fechado, trabalha como mecânico (hum) e tenta evitar contato com os outros, até que uma gangue local pede que ele compre cerveja. O rapaz recusa, mas os adolescentes atrevidos começam a pressioná-lo. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), que estava passando de carro, vem em seu socorro. Os estudantes deixam o 'louco' e o 'esquisito' em paz e vão embora, e Laurie decide apresentar o rapaz ferido à sua neta Allyson (Andi Matichak), que trabalha como enfermeira no hospital local. 

Após os eventos do Halloween de 2018, Laurie comprou uma casinha charmosa, mudou-se para lá com a neta e tenta viver uma vida pacífica, sem se preparar para outro encontro com Michael Myers. A avó faz tortas, passa tempo com a amiga e escreve um livro, tentando elaborar seus traumas psicológicos após os confrontos cara a cara com o mal (spoiler: não está dando muito certo). E Myers apenas desapareceu, mas não morreu. O dia 31 de outubro se aproxima, o que significa que o mal retornará a Haddonfield e se fará lembrar aos moradores. E desta vez, o assassino implacável (será?) não pretende agir sozinho…

Vovô, toma seus remédios, senão vai levar…

Em sua trilogia, David Gordon Green 'cortou' os 7 filmes anteriores sobre Michael Myers, livrando-o do parentesco com Laurie e da explicação mágica de sua essência. O maníaco voltou a ser 'The Shape' nos créditos, que significa 'a forma'. Na prática, Michael é apenas uma vítima aleatória, um recipiente para o mal absoluto. Um menino de seis anos, há muito tempo, simplesmente não teve sorte e se tornou a personificação da maldade e do ódio humanos. Ele não precisa de história, motivação ou personalidade definida. Ele só precisa de uma vítima (de preferência mais de uma) e de se alimentar do medo. 

Green decidiu desenvolver a franquia nessa direção. A primeira parte conseguiu despertar sentimentos de nostalgia nos corações dos críticos e fãs, enquanto 'Halloween Kills' já foi recebido com mais frieza. E, no final, 'Halloween Ends' não termina em uma nota muito alta. A ideia certamente merece elogios, mas o 'Halloween' original nunca foi concebido para ser algo profundo. É um clássico do slasher horror, que consolidou o subgênero no mercado da indústria cinematográfica. Carpenter criou uma história assustadora, estabelecendo a moda para uma nova onda de filmes de terror. Talvez as motivações dos personagens não interessassem tanto ao diretor, mas ele conseguiu fazer um filme cult com pouco dinheiro (o orçamento do original foi de apenas 325 mil dólares) e assustar o mundo inteiro. A história parecia bastante completa, embora com um final aberto. Depois disso, John Carpenter perdeu o interesse por Michael e o deixou aos cuidados do estúdio, retornando apenas quando havia necessidade financeira. 

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Michael Myers (James Jude Courtney e Nick Castle) em uma cena do filme 'Halloween Ends' (2022)

Ao retornar a franquia às suas origens em 2018, quatro anos depois Green chegou ao mesmo absurdo que os criadores das sequências 40 anos atrás. Descobriu-se que o mal de Michael Myers é capaz de se transmitir quase que por via aérea, desde que o ambiente seja adequado. E em Haddonfield, a atmosfera do mal é uma das mais favoráveis. Mais favorável só no estado do Maine, em algum Castle Rock.

Em sua terra natal, Myers, escondido no esgoto, vive tranquilamente e de vez em quando mata, arrastando suas vítimas para dentro pelo cano, até se deparar com Corey. Seus olhares se encontram, e… Faísca, tempestade, loucura. Michael decide não matar o rapaz. Por quê? Que súbito ataque de humanidade é esse? Ninguém explica nada, mas o garoto é infectado pelo mal. Fica tão imbuído dele que Laurie consegue sentir a presença do Bicho-Papão apenas em seu olhar. 

No final das contas, Cunningham leva novas vítimas ao maníaco e depois começa a trabalhar em equipe com ele. Por que Myers de repente pega um estagiário imitador e mata em dupla com ele? Depois de 44 anos, teve que mudar seus princípios? Aparentemente, o vovô entende que 'Halloween Ends' e está na hora de se aposentar, e o legado precisa ser passado para mãos confiáveis, que estarão com os cotovelos cheios de sangue. 

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Jamie Lee Curtis e Rohan Campbell em uma cena do filme 'Halloween Ends' (2022)

Os anos afetaram muito Michael. Ele ficou visivelmente mais fraco. Em determinado momento, uma das vítimas quase o domina, mas o assassinato lhe dá forças vitais. Então Michael Myers é uma espécie de vampiro que ainda transforma pessoas em algo semelhante a ele? Que reviravolta. Depois de algumas vítimas, o vovô volta à forma (mas não à antiga). Desta vez, ele tem significativamente menos vítimas e as mata com relutância. Como se o chefe (na figura do diretor Green) o obrigasse a fazer isso contra a vontade. E o final grandioso é apenas uma briga de dois velhos, que já é ridícula de assistir. 'O vovô e o papai se pegaram bêbados e estragaram a festa de todo mundo, sempre a mesma coisa'. Não dá para descrever de outra forma.

A máscara! A máscara! A máscara!

'Halloween Ends' não é mais a história do confronto entre Laurie Strode e Michael Myers. Formalmente, o filme encerra a história deles, mas o foco agora mudou para Corey e Allyson. A franquia claramente se despede dos antigos heróis. Para a personagem de Jamie Lee Curtis, isso não é novidade, já que em 'Halloween Kills' ela passou quase o filme inteiro em uma cama de hospital, mas para Michael, essa abordagem é novidade. O confronto intenso já é coisa do passado, e o número de vítimas de Myers diminuiu significativamente. Além disso, agora todo mundo tenta arrancar sua máscara, e com ela, como em 'The Mask', parte de seu poder se dissipa. 

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Jamie Lee Curtis e Michael Myers (James Jude Courtney e Nick Castle) em uma cena do filme 'Halloween Ends' (2022)

O filme tenta explorar a natureza do mal e parecer algo maior do que um simples slasher, por mais icônico que tenha sido no passado. Cada quadro grita para nós que 'Halloween Ends' (não vou parar de encaixar o título no contexto). O auge já passou há muito tempo, e o estúdio transformou a franquia em uma vaca leiteira sob a marca do feriado. Os criadores entendem que, lançando o filme pouco antes do Dia das Bruxas, podem arrecadar um bom 'dinheiro', cobrindo o orçamento e lucrando. Mas até nisso duvidaram da última parte, já que lançaram o filme simultaneamente nos cinemas e na plataforma online.

Claro, as pessoas ainda foram assistir. Primeiro, a trilha sonora de John Carpenter é um clássico imortal do outono, que sempre agrada aos ouvidos durante a exibição e ameniza qualquer atmosfera do que está acontecendo na tela. Segundo, o público é informado de que estamos nos despedindo da franquia, então precisamos saber o que vai acontecer com Laurie e seu perseguidor eterno. E aí, no cinema, tentam nos mostrar não uma atração comum com um monte de assassinatos e perseguições, mas transmitir alguma ideia sobre a natureza do mal sem uma base sólida para reflexão. 

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Andi Matichak em uma cena do filme 'Halloween Ends' (2022)

Francamente, 'Halloween Ends' não é uma declaração autoral sobre temas atuais, mas um terror comum (e já nem dá para dizer de qual categoria: 'A' ou 'B'). Tentar extrair dele um drama sério é uma ideia meio sem graça. Ainda mais que quase todos os assassinatos no filme não são cometidos por Michael, mas por seu 'imitador'. Na prática, pelo preço de um artigo original, tentam nos empurrar uma réplica bem feita, mas ainda assim uma réplica. Usar ou não, é uma questão de princípio de cada um, mas eu pessoalmente não usaria. Os motivos são muitos, mas o principal é que não é o original, você percebe isso e se sente desconfortável com esse fato. É isso.

Qual é o resultado?

O final da trilogia de David Gordon Green ficou abertamente controverso. O diretor tentou adicionar drama à franquia e conversar com o público sobre a essência do mal e sua contagiosidade, mas o resultado não foi muito bem-sucedido. A questão é que o filme ficou em cima do muro. Para um drama, o roteiro é muito fraco e o conflito pouco convincente, e para um slasher, há poucas mortes espetaculares (em comparação com as partes anteriores, com certeza). O que queriam? Para que tudo isso? E o final aberto, com a ideia de que qualquer um pode se tornar Michael Myers, torna até o título do filme pouco convincente. Talvez 'Halloween Ends', mas há uma sensação forte de que não acaba.