
Ethan Hawke e Ewan McGregor cavam a sepultura do pai abusivo, acrobatas se apresentam no funeral e o falecido está de bruços no caixão — tudo isso no novo filme da Apple TV 'Raymond & Ray' com atores estrelados que não têm o que interpretar
Em 21 de outubro, o drama 'Raymond & Ray' (Raymond & Ray) de Rodrigo García, filho do renomado escritor Gabriel García Márquez e participante assíduo de festivais internacionais de cinema, estreou no streaming Apple TV.
Dois irmãos, Raymond (Ewan McGregor) e Ray (Ethan Hawke), vão ao funeral do pai. Ambos estão na idade da crise, não alcançaram grande coisa e, para ser sincero, culpam o pai cruel por todos os seus problemas.
Ao chegar, os irmãos descobrem a última vontade do falecido — cavar a própria sepultura com as próprias mãos. E isso não é tudo. Durante o tempo de separação, o pai não perdeu tempo: casou-se algumas vezes, gerou descendentes e, pelo resto da vida, foi educado e cordial com vizinhos e amigos, como se tentasse se redimir. Todos ao redor falam bem dele, e os irmãos sentem que não se trata da mesma pessoa que conheceram na infância.
Assim, Raymond e Ray literalmente cavarão o passado para enfrentar cara a cara aquilo de que fugiram a vida inteira — a sombra invisível de seu pai, com quem nunca conseguiram conversar em vida.
O renomado diretor Rodrigo García ('Quatro Bons Dias', 'Nove Vidas') desta vez lançou um filme bastante superficial e simplificado. Ao conceber o filme como uma ferramenta para trabalhar traumas de infância e reflexão (o que por si só já não é novidade), ele, já na metade do filme, muda repentinamente o vetor em favor do absurdo e da farsa explícita. Mas não obtém sucesso em nenhum dos aspectos.
Seus Raymond e Ray são personagens estereotipados carregando uma mochila de bofetadas paternas nas costas. Até seus nomes idênticos são uma zombaria do pai, para não se confundir em mais um acesso de fúria. Ele não se importava com quem ou por que repreender — ambos eram sempre culpados. O despotismo doméstico deixou uma cicatriz profunda na vida dos irmãos, que gastaram os melhores anos de suas vidas tentando se livrar do legado abusivo do pai, mas sem sucesso. 'Somos filhos do caos', diz Raymond a caminho do cemitério, resumindo o triste balanço de suas esperanças não realizadas.
E parecia que, justamente agora, quando o espectador está pronto para percorrer todo o caminho com Raymond e Ray, do ódio ao final edificante, o diretor de repente dá uma guinada. Os protagonistas tornam-se subitamente supérfluos, e a ótica de García se desloca para os personagens secundários. Aqueles mesmos que o pai gerou durante a longa separação dos filhos. O diretor reuniu aqui, sem exagero, um verdadeiro panóptico, e o funeral, de um processo tocante e íntimo, transforma-se em farsa.
O falecido está no caixão de bruços, acrobatas de circo fazem cambalhotas, o padre faz piadas sem graça, e Raymond e Ray ocupam o restante do tempo com brigas convulsivas, tocando trompete e disparando uma pistola. Cadê a psicologia — é sobreviver.
No final, nem Hawke (cuja carreira entra em um novo ciclo de desenvolvimento) nem McGregor (que ultimamente escolhe projetos medíocres) têm o que interpretar no filme. O espaço para reflexão é muito limitado, e simplesmente não há tempo suficiente para se adaptar ao humor volúvel do diretor. Começa bem e termina mal — não há como dizer de outra forma. O filme fracassa de forma medíocre, sem despertar emoções positivas ou qualquer resposta de compaixão.
E como seria bom ter uma história sensível para a noite.
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