
Emmanuelle Béart leva as pessoas a conversas sinceras, e Charlotte Gainsbourg aprende a viver de novo no filme de Mikhaël Hers «Os Passageiros da Noite».
Paris dos anos 80. O espírito inebriante da mudança. Esperanças de um futuro brilhante com o novo governo. Conversas noturnas no rádio sobre o íntimo. Desde os primeiros segundos, o filme «Os Passageiros da Noite» (Les passagers de la nuit) mergulha o espectador na atmosfera de liberdade. Liberdade de censura, constrangimento, grilhões do passado. E só depois nos apresenta a Elisabeth, a heroína de Charlotte Gainsbourg, que se divorcia do marido, cria dois filhos adolescentes, procura trabalho e seu lugar neste mundo.
Elisabeth adora ouvir rádio, olhando as luzes da cidade noturna através das enormes janelas panorâmicas, especialmente o talk show «Os Passageiros da Noite», onde os heróis falam ao vivo sobre o que realmente os preocupa. Por acaso, ela consegue um emprego como assistente da carismática apresentadora (interpretada pela encantadora Emmanuelle Béart) e se torna parte do projeto. Mas nem isso se torna o ponto de virada em sua nova vida, e sim o encontro com a jovem Talulah (Noée Abita), convidada de um dos episódios do programa, a quem Elisabeth acolhe sob sua proteção.
Tristeza suave com charme francês
O filme de Mikhaël Hers não tem uma estrutura narrativa coesa. Aqui você tem duas linhas do tempo, mostrando dois períodos de transição de Elisabeth (logo após o divórcio e alguns anos depois), uma série de episódios pouco conectados para desenvolver os personagens e subtramas (como a luta de Talulah contra o vício).
Assistir ao filme «Os Passageiros da Noite» é mais como folhear um álbum de família. Essa sensação é familiar a todos — quando, ao olhar uma foto aleatória de dias passados, você instantaneamente se lembra da história por trás dela. Nostalgia. Calor. Tristeza suave. Só que tudo isso é temperado com o fino charme francês e uma visão romântica da vida.
Essa abordagem da trama pode fazer alguns espectadores se sentirem enganados, tipo «não são minhas memórias, por que eu deveria me importar com as experiências pessoais do diretor?!» E isso seria justo. Mas, se deixarmos de lado a postura crítica, podemos perceber que «Os Passageiros da Noite» abordam temas universais: relações entre pais e filhos, a vida após o rompimento com um ente querido, a busca por si mesmo.
Mais de uma vez durante a exibição, você pode se pegar pensando «nossa, eu também passei por isso!» Por causa disso, o filme tem um efeito quase terapêutico. Ele dá o que pensar, provoca memórias, reavaliação da própria vida e de ações individuais, lembrando mais uma vez como a vida pode ser bela, basta olhar para os pequenos detalhes ao redor.
Beleza é a eternidade que dura um instante
O que não se pode negar ao filme «Os Passageiros da Noite» é a beleza. Ela está literalmente em tudo.
Atrizes lindas, cujo carisma envolve: nos olhos da jovem Noée Abita você pode se afogar, e Charlotte Gainsbourg e Emmanuelle Béart, para usar um clichê jornalístico, vivem a vida na tela, personificando a escola de atuação francesa.
Música encantadora, que leva para algum lugar muito distante. É ao mesmo tempo triste e inspiradora. E na cena em que os heróis dançam ao som de Joe Dassin, o mundo simplesmente pausa, porque nada mais bonito pode existir naquele momento.
A beleza no filme «Os Passageiros da Noite» não é apenas audiovisual, embora um parágrafo inteiro pudesse ser dedicado ao trabalho de câmera discreto, mas muito íntimo e cativante. A beleza também está no fato de que os heróis na tela realmente se comportam como pessoas próximas. Apesar das dificuldades e divergências, eles se apoiam, se encorajam e simplesmente estão presentes. E esse calor pode ser sentido por cada espectador. E isso, nos dias de hoje, vale muito.
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