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Estreou 'Três Mil Anos de Desejo', um raro grande filme de Hollywood em nossas latitudes, além disso dirigido por George Miller ('Mad Max'), um diretor amado e esperado na Rússia. Mas após a exibição, ficamos com sentimentos mistos.

Aleteia Binney é uma narratóloga, estuda mitos de diferentes países e povos e prova que mesmo tradições muito diferentes têm raízes e medos comuns. Ela busca o comum para provar: todas as pessoas enfrentaram problemas semelhantes e responderam com essa engenhosa bobagem, e agora a ciência resolve esses problemas, os mitos não são mais necessários e tudo mais.

Seria bastante chato de assistir, mas Aleteia é interpretada por Tilda Swinton, e esse fato imediatamente traz alguma esperança de um desenvolvimento interessante – bem, a esperança em certo sentido se justifica. Comprando um vaso antigo e um pouco danificado em uma loja de antiguidades em Istambul, Aleteia tenta limpá-lo na manhã seguinte com uma escova de dentes elétrica e acidentalmente o abre. Uma nuvem gigante aparece, enche todo o quarto, Aleteia pensa em fechar os olhos e tudo desaparecerá, mas o materializado (inflado via CGI à escala de Hagrid) não vai desaparecer – a cientista libertou um gênio, uma criatura mítica pronta para realizar três desejos.

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Evgenia Smykova
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No entanto, Aleteia – uma pessoa moderna em sua expressão máxima – não consegue desejar nada. Ela tem casa, não tem família, mas não precisa dela, não está pronta para morrer por amor, não precisa de todo o conhecimento do mundo e nem de meio reino. Os europeus ocidentais vivem tão bem que os gênios, ao que parece, nunca sairão da garrafa.

Tilda Swinton, Idris Elba, 'Três Mil Anos de Desejo'
Cena do filme 'Três Mil Anos de Desejo'

Mas não, uma saída é encontrada – o pós-modernismo tirou os desejos do ser humano, tudo se tornou piada, o mistério virou brincadeira, mas a necessidade de histórias permaneceu. Aleteia começa a ouvir fascinada as histórias sobre o destino difícil do gênio – brincadeira? Três aprisionamentos na garrafa, dois deles por amor e um por estupidez – e gradualmente se afoga nelas. Ela é uma voyeur, no mesmo sentido que os heróis de 'Janela Indiscreta' e 'Blow-Up', por exemplo. A vida alheia e há muito terminada acaba sendo muito mais interessante que a real, onde estão as paixões, as sensações, onde tudo é de verdade.

E seguindo sua heroína racional, que passa da zombaria calculista ('Sei perfeitamente que você é um gênio-trapaceiro e virará meus desejos contra mim, para quê tudo isso?') à esperança de amor sincero, 'Três Mil Anos de Desejo' também dá um salto do pós- para o metamodernismo, do século XX para o XXI. Aleteia, que não queria nada, em algum momento começa a desejar o impossível, e nisso há, talvez, a sinceridade e engenhosidade pelas quais amamos George Miller, que, apesar de todo o ecletismo (quem mais tem na filmografia um filme sobre um porquinho falante e um exploitation pós-apocalíptico sobre um guarda de trânsito vingativo?), permanece sempre fiel a si mesmo.

Claro, a problemática do filme 'Três Mil Anos de Desejo' não é nova, mas isso não o torna menos interessante: Miller é um diretor notável, e reconta velhas verdades com deleite, entusiasmo quase infantil e ao mesmo tempo sabedoria (como se ele mesmo tivesse vivido três mil anos), de modo que mesmo nos momentos mais banais o filme continua sendo um espetáculo cativante. O autor também não trai seu gosto: mesmo quando a ação lembra estranhamente 'O Século Magnífico', sente-se que não é tanto vulgaridade, mas um comentário pós-moderno sobre ela.

Tilda Swinton
Cena do filme 'Três Mil Anos de Desejo'

Mas apenas um comentário pós-moderno em um filme de gênero não é suficiente, então na segunda metade do filme 'Três Mil Anos de Desejo' a ação se desloca do passado distante para o nosso tempo, para contar uma história de amor moderna. E é aí que começam os problemas.

O fato é que Swinton e Elba individualmente são grandes artistas, mas interpretando 'Kate e Leo' no espírito de 'As Mil e Uma Noites', eles perdem para Hugh Jackman e Meg Ryan – não há química especial entre eles, e a temperatura do filme não sobe acima da ambiente. Os heróis brincam, claro, de vez em quando, e até brigam, mas tudo parece um pouco forçado. Até sua suposta discussão engraçada sobre se a Rainha de Sabá foi até Salomão (como está na Bíblia), ou ele até ela (como afirma o gênio), é dita no silêncio opressor da sala de cinema, embora a piada seja explicada e até enfatizada.

Miller explica tudo, e nisso há, claro, um problema – para o cinema de gênero há muita coisa a explicar, para o cinema de autor, muita coisa é explicada. E o fato de que foi Salomão quem foi até a Rainha de Sabá acaba sendo, em princípio, uma sensação do mesmo nível que se, por exemplo, se descobrisse que não foi o Ursinho Pooh quem foi ao Coelho, mas o Coelho ao Ursinho. Ou seja, uma informação curiosa, sem dúvida, mas, no geral, desnecessária.

Assim também 'Três Mil Anos de Desejo' – parece um bom filme; moralmente correto; o sarcasmo no momento certo se transforma em sinceridade; e na ideia de que agora, quando não temos nada a desejar, desejaremos o impossível, há alguma profundidade ontológica; mas dá vontade de colocar o gênio de volta em seu reino feliz, e Tilda Swinton em algum novo filme.

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'Três Mil Anos de Desejo' em cartaz a partir de 8 de setembro.