
Estreou 'Três Mil Anos de Desejo', um raro grande filme de Hollywood em nossas latitudes, além disso dirigido por George Miller ('Mad Max'), um diretor amado e esperado na Rússia. Mas após a exibição, ficamos com sentimentos mistos.
Aleteia Binney é uma narratóloga, estuda mitos de diferentes países e povos e prova que mesmo tradições muito diferentes têm raízes e medos comuns. Ela busca o comum para provar: todas as pessoas enfrentaram problemas semelhantes e responderam com essa engenhosa bobagem, e agora a ciência resolve esses problemas, os mitos não são mais necessários e tudo mais.
Seria bastante chato de assistir, mas Aleteia é interpretada por Tilda Swinton, e esse fato imediatamente traz alguma esperança de um desenvolvimento interessante – bem, a esperança em certo sentido se justifica. Comprando um vaso antigo e um pouco danificado em uma loja de antiguidades em Istambul, Aleteia tenta limpá-lo na manhã seguinte com uma escova de dentes elétrica e acidentalmente o abre. Uma nuvem gigante aparece, enche todo o quarto, Aleteia pensa em fechar os olhos e tudo desaparecerá, mas o materializado (inflado via CGI à escala de Hagrid) não vai desaparecer – a cientista libertou um gênio, uma criatura mítica pronta para realizar três desejos.
Em 5 de agosto, estreia o filme 'O Esquadrão Suicida: Missão Explosiva'. Na cadeira de diretor está James Gunn. Sobre a trajetória criativa de Gunn, leia em nosso artigo.
Open materialNo entanto, Aleteia – uma pessoa moderna em sua expressão máxima – não consegue desejar nada. Ela tem casa, não tem família, mas não precisa dela, não está pronta para morrer por amor, não precisa de todo o conhecimento do mundo e nem de meio reino. Os europeus ocidentais vivem tão bem que os gênios, ao que parece, nunca sairão da garrafa.

Mas não, uma saída é encontrada – o pós-modernismo tirou os desejos do ser humano, tudo se tornou piada, o mistério virou brincadeira, mas a necessidade de histórias permaneceu. Aleteia começa a ouvir fascinada as histórias sobre o destino difícil do gênio – brincadeira? Três aprisionamentos na garrafa, dois deles por amor e um por estupidez – e gradualmente se afoga nelas. Ela é uma voyeur, no mesmo sentido que os heróis de 'Janela Indiscreta' e 'Blow-Up', por exemplo. A vida alheia e há muito terminada acaba sendo muito mais interessante que a real, onde estão as paixões, as sensações, onde tudo é de verdade.
E seguindo sua heroína racional, que passa da zombaria calculista ('Sei perfeitamente que você é um gênio-trapaceiro e virará meus desejos contra mim, para quê tudo isso?') à esperança de amor sincero, 'Três Mil Anos de Desejo' também dá um salto do pós- para o metamodernismo, do século XX para o XXI. Aleteia, que não queria nada, em algum momento começa a desejar o impossível, e nisso há, talvez, a sinceridade e engenhosidade pelas quais amamos George Miller, que, apesar de todo o ecletismo (quem mais tem na filmografia um filme sobre um porquinho falante e um exploitation pós-apocalíptico sobre um guarda de trânsito vingativo?), permanece sempre fiel a si mesmo.
Claro, a problemática do filme 'Três Mil Anos de Desejo' não é nova, mas isso não o torna menos interessante: Miller é um diretor notável, e reconta velhas verdades com deleite, entusiasmo quase infantil e ao mesmo tempo sabedoria (como se ele mesmo tivesse vivido três mil anos), de modo que mesmo nos momentos mais banais o filme continua sendo um espetáculo cativante. O autor também não trai seu gosto: mesmo quando a ação lembra estranhamente 'O Século Magnífico', sente-se que não é tanto vulgaridade, mas um comentário pós-moderno sobre ela.

Mas apenas um comentário pós-moderno em um filme de gênero não é suficiente, então na segunda metade do filme 'Três Mil Anos de Desejo' a ação se desloca do passado distante para o nosso tempo, para contar uma história de amor moderna. E é aí que começam os problemas.
O fato é que Swinton e Elba individualmente são grandes artistas, mas interpretando 'Kate e Leo' no espírito de 'As Mil e Uma Noites', eles perdem para Hugh Jackman e Meg Ryan – não há química especial entre eles, e a temperatura do filme não sobe acima da ambiente. Os heróis brincam, claro, de vez em quando, e até brigam, mas tudo parece um pouco forçado. Até sua suposta discussão engraçada sobre se a Rainha de Sabá foi até Salomão (como está na Bíblia), ou ele até ela (como afirma o gênio), é dita no silêncio opressor da sala de cinema, embora a piada seja explicada e até enfatizada.
Miller explica tudo, e nisso há, claro, um problema – para o cinema de gênero há muita coisa a explicar, para o cinema de autor, muita coisa é explicada. E o fato de que foi Salomão quem foi até a Rainha de Sabá acaba sendo, em princípio, uma sensação do mesmo nível que se, por exemplo, se descobrisse que não foi o Ursinho Pooh quem foi ao Coelho, mas o Coelho ao Ursinho. Ou seja, uma informação curiosa, sem dúvida, mas, no geral, desnecessária.
Assim também 'Três Mil Anos de Desejo' – parece um bom filme; moralmente correto; o sarcasmo no momento certo se transforma em sinceridade; e na ideia de que agora, quando não temos nada a desejar, desejaremos o impossível, há alguma profundidade ontológica; mas dá vontade de colocar o gênio de volta em seu reino feliz, e Tilda Swinton em algum novo filme.
Contamos o que esperar do filme 'Memória', novo trabalho do laureado do Festival de Cannes Apichatpong Weerasethakul.
Open material'Três Mil Anos de Desejo' em cartaz a partir de 8 de setembro.
Komentar
0Belum ada komentar.
Masuk untuk ikut berdiskusi.