
E se Mogli tivesse sido criado por lobos e, na selva, encontrasse uma garota criada por chitas? Então teria uma história de amor comovente, que depois seria contada às crianças na hora de dormir. O filme 'Lobo' permite que os adultos fantasiem sobre...
Jacob (George MacKay) é diferente dos outros jovens: em vez de correr atrás de garotas à noite, ele uiva para a Lua e rasteja descalço pela floresta. Ele se considera um lobo e, com o apoio dos pais, vai para uma clínica. Lá, ele encontra um papagaio, um esquilo, um pastor alemão, um cavalo, um panda e um gato selvagem (Lily-Rose Depp). E descobre como realmente funciona o tratamento no mundo selvagem, onde cada um é sua própria fera.
No mundo científico, os pesquisadores continuam a encontrar peculiaridades da psique humana. Às vezes, essas descobertas parecem histórias de ficção científica, como no caso da disforia de espécie. É uma condição em que a pessoa se considera um animal. E o filme 'Lobo', de Nathalie Biancheri, exibido pela primeira vez no Festival de Toronto em 2021, é exatamente sobre esse fenômeno.
'Lobo' é uma mistura de gêneros. Há um drama social, que explora o que significa ser normal e onde está a linha que, uma vez ultrapassada, transforma uma pessoa em pária. O protagonista explora os limites do permitido na sociedade fechada da clínica, enquanto tenta aprender a aceitar a si mesmo como é, e não como seus pais ou médicos querem que ele seja.
E se considerarmos o mundo da clínica como uma metáfora da nossa sociedade, fica claro que todos nós, de uma forma ou de outra, estamos doentes, e o conceito de normalidade é muito abstrato. Os adultos impõem às crianças a ideia do que elas devem se tornar, o que devem alcançar, e estes, já adultos, repetem esse mantra para a nova geração. Portanto, aqui, os pacientes infantis com personalidades animais parecem rebeldes que não querem viver de acordo com as regras do mundo ao redor.
O relacionamento entre os personagens de MacKay e Depp é um melodrama que se desenvolve seguindo todos os cânones tradicionais do gênero. O menino conheceu a menina, a princípio ela não o reconheceu, mas, ao ajudá-lo, começou a sentir simpatia. Depois veio o primeiro conflito, dificuldades de compreensão mútua, uma nova tentativa e uma fuga quase bem-sucedida da realidade. Usando o exemplo de crianças psicologicamente instáveis, o filme reflete sobre um tema batido, mas sempre atual: até onde você está disposto a ir por amor? Você irá até o fim para ficar junto, ou não está destinado a caminhar juntos para o pôr do sol?
E, claro, 'Lobo' é um thriller psicológico. Esse gênero é sentido em cada cena: quando curam e ao mesmo tempo machucam, quando elogiam e humilham, quando sorriem e repreendem. A pressão exercida sobre os pacientes da clínica transpira através da tela, pois todos já enfrentaram bullying, incompreensão e violência, apenas em doses diferentes.
Vemos como o tratamento, aparentemente progressista à primeira vista, gradualmente se transforma em uma câmara de tortura, onde os pacientes são forçados a subir em árvores ou pular pela janela. Ao observar o endurecimento da terapia, a tensão cresce inconscientemente dentro de nós, porque não está claro o que espera essas crianças. E se algo ou alguém as espera? Aos poucos, vê-se mais humanidade nos pacientes que se consideram animais do que nas próprias pessoas.
A pressão psicológica também é intensificada pelo visual: a reclusão da clínica e a geometria em seu design causam claustrofobia. E o minimalismo e a esterilidade parecem apagar o individual, afirmando que o principal aqui é a impessoalidade. Vocês vieram aqui diferentes, mas faremos de vocês iguais — normais pelos padrões geralmente aceitos.
Os subtextos e ideias no filme são transmitidos através dos atores e da linguagem corporal. Nathalie Biancheri focou em closes. Através do trabalho com expressões faciais, olhar e voz, sente-se toda a dor e confusão dos pacientes. Mas o trabalho de atuação merece reconhecimento especial pela excelente plasticidade, graças à qual a transformação em animal parece natural, e não constrangedora.
Lily-Rose Depp e, especialmente, George MacKay literalmente se tornaram um com seus animais, fazendo-nos acreditar na luta interna entre os instintos animalescos e humanos. Cenas em que MacKay rasteja pela clínica à noite são um deleite visual e estético. O diretor de fotografia filmou a marcha lupina do ator como se estivéssemos diante de um animal, e não de um ser humano.
Especialistas dizem que dentro de cada um de nós há uma fera selvagem, mas as normas sociais nos obrigam a escondê-la, controlá-la e educá-la. Mas o que aconteceria se a libertássemos e a deixássemos decidir? Existe empatia no instinto animal, ou isso é mérito e privilégio da sociedade? E manteremos nossa parte humana, ou são aspectos mutuamente exclusivos? Sobre isso e muito mais, neste filme, Nathalie Biancheri reflete de forma sutil, bela e ambígua.
'Lobo' está em cartaz nos cinemas russos a partir de 2 de junho, distribuído pela Arthouse.
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