
Alvo Dumbledore disse uma vez a Harry Potter: «Não tenha pena dos mortos, tenha pena dos vivos». Mas às vezes podemos ter pena dos mortos, especialmente se eles coexistem com os vivos no século XXI. Contamos sobre novas séries de fantasmas, onde os m...
«Vale Brilhante» (2022)
A trama da série gira em torno de uma escritora famosa no passado (Courteney Cox), especializada em romances eróticos. Além disso, ela recentemente superou o vício em drogas e terminou um caso turbulento com um encanador. Um dia, seu marido fiel e sempre perdoador (Greg Kinnear) descobre o caso. A família, passando por maus bocados, sai da barulhenta metrópole para uma cidade pequena e se instala em uma mansão antiga para curar as feridas. Naturalmente, a nova casa está cheia de surpresas sobrenaturais.
Já no primeiro episódio, a camada externa de terror cai, revelando um drama familiar e uma sátira descarada da sociedade moderna (e um pouco de mistério). Usando o exemplo de uma família maluca e seus vizinhos, «Vale Brilhante» zomba da religiosidade generalizada dos americanos. E, no final, são os descrentes que se encontram no epicentro da luta entre o bem e o mal. Além disso, a série ironiza o mundo literário moderno, onde os best-sellers são ou literatura young adult ou livros como «Cinquenta Tons de Cinza».
A série também aborda os principais pontos sensíveis da América moderna: traições de parceiros, resolução de problemas de maneiras não convencionais (por exemplo, com a ajuda do diabo), vícios (álcool, drogas) e, claro, as relações entre pais e filhos. E a luta contra a possessão por um espírito maligno parece uma metáfora óbvia, embora, para o confronto com demônios internos. Só que os heróis escolhem métodos não muito «piedosos», que acabam trazendo ainda mais problemas.
De certa forma, «Vale Brilhante» é uma série sobre cada um de nós, ou melhor, sobre quem não queremos nos tornar. É uma sátira mordaz sobre como nossos medos levam a destruições em grande escala, destruindo não apenas a nós mesmos, mas também aqueles ao nosso redor. É adequada para fãs de humor negro (às vezes de baixo nível), personagens excêntricos estranhos e eventos caóticos. Em alguns momentos, a ironia cruel de «Vale Brilhante» até repele. Se os criadores queriam fazer um projeto espinhoso e cortante, eles claramente conseguiram. No entanto, se isso lhes permitirá filmar uma segunda temporada ainda é uma questão em aberto.
«Fantasmas» (2021) e «Fantasmas» (2019)
Um jovem casal herda uma mansão habitada por fantasmas. Sem pensar muito, os novos proprietários decidem abrir uma mini-pousada na propriedade, o que não agrada muito os moradores incorpóreos da casa antiga.
Antes de mais nada, é preciso dizer que a versão americana de «Fantasmas» de 2021 é um remake da série britânica homônima de 2019. E os criadores do novo projeto se esforçaram ao máximo para preservar a atmosfera do original.

No geral, ambas as séries se posicionam claramente como sitcoms. A princípio, a trama se desenvolve em torno do confronto entre vivos e mortos, mas gradualmente se transforma em uma conversa sobre como esses dois mundos podem coexistir. Na versão da BBC, há o charme do humor britânico; já no remake, as piadas americanas se destacam pelo contraste. Isso se tornou o maior problema de recepção, dividindo o público em duas frentes. Além disso, na versão americana de «Fantasmas», há mais referências à cultura pop e autoironia.
O que ambos os projetos têm em comum é que, no final, os fantasmas são mostrados como mais vivos e reais do que o jovem casal. Na mansão, vivem fantasmas de diferentes gerações (um viking ou um homem das cavernas, um hippie, uma nobre e um membro do parlamento), que lembram pais idosos rabugentos que, na velhice, são forçados a aprender os meandros do funcionamento da TV (especialmente se não conseguem apertar os botões) e da internet. Ao mesmo tempo, os mortos aprendem a se reconciliar com o passado e a deixar de lado velhas mágoas, e, junto com eles, os vivos também adquirem essa habilidade.
No final, temos duas séries leves e divertidas, onde, por trás de uma camada de humor, escondem-se ideias bonitas, embora óbvias, sobre humanidade, amor à vida, bondade e compreensão mútua. E a escolha entre o original e o remake depende apenas de qual visão de mundo é mais próxima de você: a americana ou a britânica. Mas se você gostou de sitcoms como «Brooklyn 9-9» ou «The Good Place», com certeza vai apreciar o remake. Afinal, o showrunner da versão americana é o diretor dessas duas séries, Trent O'Donnell.

«O Fantasma de Canterville» (2021)
Mais uma série de comédia britânica sobre o destino complicado dos fantasmas. Só que desta vez com base literária, ou melhor, inspirada vagamente na famosa prosa de Oscar Wilde. No centro da trama, uma família que, em busca de um novo começo na vida, se muda para uma mansão com um fantasma conhecido por seu temperamento insuportável.
A série, embora criada em 2021, é permeada pela atmosfera dos programas do final dos anos 90 e início dos anos 2000, com gráficos de computador ridículos, antiquados e reviravoltas banais, onde o amor sempre vence no final. No entanto, por mais clichê e chato que esse motivo possa parecer, ele nunca perde seu charme ingênuo. Pelo clima geral, «O Fantasma de Canterville» lembra a comédia familiar «A Mansão Mal-Assombrada» de 2003, com Eddie Murphy — a série é igualmente leve, engraçada e inofensiva.
P.S.
Para quem leu até o fim, um pequeno bônus. Sobre o que acontece quando se brinca com forças sobrenaturais, foi brilhantemente contado na comédia de 1992 «A Morte lhe Cai Bem». As incríveis Meryl Streep, Bruce Willis e Goldie Hawn encenaram uma tragicomédia que literalmente levou dois deles à morte. E graças ao talento de Robert Zemeckis, mesmo agora essa comédia negra parece vibrante e interessante.
E em 2020, um dos diretores de «Downton Abbey», Edward Hall, fez um filme igualmente interessante, «A Ex-Mulher do Além», sobre como uma esposa falecida (Leslie Mann) pode complicar a vida do marido (Dan Stevens) e de sua nova namorada (Isla Fisher). Como guia para as almas do além, a inconfundível Judi Dench.

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