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A editora Gorodets fez um verdadeiro presente para os cinéfilos ao publicar em russo o primeiro romance do notável diretor italiano Paolo Sorrentino, «Todos têm razão». Embora não seja sobre cinema, ele é permeado por ele até os mínimos detalhes, fam...

12 anos após seu lançamento, o romance «Todos têm razão», de Paolo Sorrentino, é publicado em russo. E, claro, fala sobre a Itália e o amor. Sobre Nápoles, sua terra natal. Sobre ele mesmo, ainda que de forma velada — o protagonista aqui é o cantor Tony Pagoda, egoísta e conquistador, patriota que não deixa de resmungar sobre como seu país mudou, mesmo estando a milhares de quilômetros dele.

A ligação do livro com o cinema

O protótipo de Tony Pagoda foi Tony Pisapia, personagem de Toni Servillo no filme «O Homem a Mais», que marcou a estreia de Paolo Sorrentino no cinema.

Seu rosto com óculos Ray-Ban de lentes azuis e a peruca ruiva serviram de referência para criar Tony Pagoda.

Paolo Sorrentino
Todos têm razão Toni Servillo
Cena do filme «O Homem a Mais»

E esta é apenas a primeira de uma série de referências à própria obra do italiano no cinema. Ao longo da leitura da história sobre um homem tentando se reinventar no distante Brasil, aqui e ali os fãs do cineasta encontrarão piscadelas do autor. Algumas delas, por assim dizer, antecipadas. Assim, no romance «Todos têm razão», o espírito de «A Grande Beleza» transparece nos eventos sociais, e certos episódios da juventude do herói repetem exatamente os acontecimentos de , embora ambos os filmes tenham sido lançados muito depois do livro.

Deus dá, Deus tira: resenha do filme «A Mão de Deus» de Paolo Sorrentino
Evgeny Belousov
Deus dá, Deus tira: resenha do filme «A Mão de Deus» de Paolo Sorrentino

Em 15 de dezembro, a Netflix lançou o novo filme de Paolo Sorrentino, «A Mão de Deus», repleto da experiência de vida do diretor. Contamos sobre mais uma obra de arte do moderno italia

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Em 15 de dezembro, a Netflix lançou o novo filme de Paolo Sorrentino, «A Mão de Deus», repleto da experiência de vida do diretor. Contamos sobre mais uma obra de arte do moderno diretor italiano.
Cena do filme «A Mão de Deus»

Como Sorrentino escritor difere de Sorrentino diretor?

Assim como os filmes do italiano, o livro «Todos têm razão» é repleto de personagens coloridos: do lacônico empresário do protagonista, Jenny Afrodite, que sempre sabe o que dizer, ao carismático imigrante italiano , capaz de derrubar uma dúzia de brasileiros em uma briga.

Essas pessoas e seus destinos influenciam significativamente a formação do protagonista. Embora não movam a trama (a trama aqui é um conceito relativo), são um componente essencial dela. De suas personalidades, os leitores podem extrair muito: conhecer o modo de vida italiano por dentro, avaliar a atitude em relação à religião, ao sexo, ao patriotismo, ao sucesso.

— O show foi good, mas lembre-se de uma coisa, Tony: sucesso… sucesso é cagar para todos, — diz Frank Sinatra e ri como um alcoólatra.

Assim como os filmes do italiano, o livro «Todos têm razão» é cheio de humor. Basta ver um capítulo inteiro dedicado ao «encontro» de Tony Pagoda com as baratas brasileiras (elas até mereceram aparecer na capa). Essas criaturas se tornam, para o autor, uma metáfora da existência de algumas pessoas e uma forma de zombar delas.

A sagacidade de Paolo Sorrentino transparece em quase todos os diálogos, em cada descrição de um novo personagem ou evento. Até a tentativa de expulsar um morcego de casa se transforma em uma comédia de situação e um prelúdio para a perda da virgindade!

Uma diferença significativa entre Sorrentino escritor e ele mesmo como diretor de cinema é que aqui ele tem mais espaço para expressar seus pensamentos. Muitos capítulos do romance são fluxos de consciência do autor, um relato de sua atitude em relação aos mais diversos aspectos da vida, seja futebol ou trair a esposa não amada.

Afinal, sobre o que é o romance «Todos têm razão»?

Sobre o amor. Sobre o que mais. Mas não aquele açucarado, sobre o qual dezenas de filmes com Meg Ryan foram feitos. Embora não pudesse faltar a paixão italiana excessivamente emocional. Não. O amor segundo Sorrentino é a capacidade de valorizar as pessoas ao redor, saber que cada momento é importante, esteja você na sua Nápoles natal ou nas selvas ultramarinas do Brasil, esteja você na cama com a mulher mais deslumbrante do mundo ou na praia com seus amigos idosos.

Sim, terão razão aqueles que disserem que o livro «Todos têm razão» acabou sendo sobre tudo e sobre nada. Não tem um enredo coeso (a mudança para o Brasil, mencionada na sinopse, ocorre bem depois da metade da narrativa), mas está cheio de pensamentos caóticos. Mas se você já assistiu a algum filme de Sorrentino (e provavelmente sim, se este livro lhe interessou), receberá exatamente aquilo pelo qual amam o criador italiano.