
Após um hiato de nove anos, Jean-Pierre Jeunet retornou com um novo longa-metragem, «Big Bug», lançado na Netflix em 11 de fevereiro. Mais uma sátira mordaz da sociedade moderna se junta à biblioteca do streaming.
A filmografia de Jean-Pierre Jeunet tem apenas cinco filmes (sem contar os dois feitos com Marc Caro e «Big Bug»), mas muitos conhecem o nome do diretor pelo sucesso «O Fabuloso Destino de Amélie Poulain» ou pelo estranho e louco «Alien: A Ressurreição». Com um portfólio tão modesto, o francês conseguiu criar seu próprio estilo reconhecível, e o novo filme não é exceção. O filme é repleto de cores vivas, detalhes minuciosos e closes estranhos (e nos créditos, como de costume, o rosto do ator aparece ao lado do nome), mas, contrariando o gênero declarado de «comédia», Jeunet fez um filme verdadeiramente assustador.
Qual é a história?
Estamos em 2045. As cidades parecem saídas de um mundo cyberpunk, mas completamente sem gosto e todas iguais. Em cada casa há robôs com inteligência artificial que facilitam a vida das pessoas. Cozinhar, limpar a casa, abrir portas e lembretes sobre empréstimos de vizinhos que nunca são devolvidos — o ser humano não precisa mais fazer tarefas extras. Até escrever à mão se tornou «retrô» ou «passado», como diz um dos personagens.
Numa manhã quente e ensolarada (considerando que a Holanda foi inundada e lá fora estão 43 graus, o planeta está sofrendo aquecimento global, então todas as manhãs são incrivelmente quentes), a sensível e divorciada Alice (Elsa Zylberstein) recebe a visita de um novo conhecido, Max (Stéphane De Groodt), com seu filho da geração Z, Léo (Élie Tonna). As habilidades analíticas da robô doméstica Monique (Claude Perron) mostram que o homem não é sincero em suas palavras, mas um indicador de ereção de 100% explica a bajulação.
As investidas gradualmente funcionam, mas a escola de sedução é interrompida por visitantes inesperados: o ex-marido de Alice, Victor (Youssef Hajdi), com sua «secretária» Jennifer (Claire Chust) e a filha adotiva Nina (Marisol Fertar). Depois, a vizinha Françoise (Isabelle Nanty) aparece procurando seu cachorro Toby-6 (ou Toby-7). E todo esse grupo de pessoas, por acaso, fica preso na casa inteligente por quatro robôs domésticos, que justificam suas ações como proteção dos donos contra os perigos do mundo exterior.
O novo mundo não é tão maravilhoso
A detalhação do mundo futurista no filme de Jean-Pierre Jeunet impressiona (embora às vezes se possa criticar os efeitos especiais um pouco irregulares). No filme, muitas coisas causam repulsa ao futuro possível. Será que a humanidade realmente almeja algo assim? No cyberpunk pelo menos há uma estética neon e uma romantização da decadência diante das máquinas, mas «Big Bug» queima o romance com napalm. É como se o cenário de «Suburbicon» ou do clipe de Stromae — Papaoutai fosse transportado para o futuro. Casas, carros, interiores — tudo parece tão sem gosto, artificial e igual, como se uma cidade preto e branco e monótona tivesse sido atingida por um arco-íris, ou como se uma gigantesca mancha de gasolina tivesse caído sobre o planeta.
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Além do estilo do futuro, a obra de Jeunet tem outras coisas para surpreender o espectador. Por exemplo, por que a humanidade permitiu que a inteligência artificial se aproximasse sequer um passo da administração estatal? Os androides não tomaram o poder à força, como se costuma pensar, mas participam legalmente de debates políticos com humanos. Muitos aceitam esse fato não com resignação, mas com entusiasmo e total apoio. É triste pensar que a sociedade pode se tornar tão estúpida a ponto de entregar voluntariamente o controle do mundo aos robôs.
Os Yonix (androides políticos com o rosto de um velho careca sorridente com um código QR na testa) governam o estado, e ninguém se opõe muito. As pessoas concordam voluntariamente (ou são forçadas?) em participar do show «Homo Ridiculus», onde são tratadas como animais em um circo ou zoológico. Jeunet e seu «Big Bug», assim como Adam McKay, expõem problemas modernos com sátira mordaz. Maus-tratos a animais, relações de classe alta com a baixa, clima e ecologia, robotização e muito mais. Acontece que, em nosso mundo louco, só resta rir de tudo (inclusive de nós mesmos) para não enlouquecer.
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Открыть материалTerror escondido atrás da máscara do sorriso robótico
Apesar da sátira mordaz e da abundância de piadas, «Big Bug» parece um filme de terror em vários momentos. A época é o futuro mais próximo (23 anos é um piscar de olhos na história), e as pessoas já comem grilos fritos, torta de minhocas e (cortesia do chef) foie gras de carne humana. O ser humano não é mais considerado único em sua criação; a sociedade tem uma infinidade de multas para tudo (excesso de poeira, posse de antiguidades não autorizadas, até mesmo tentativa de agressão a robôs, e a história do personagem de Dominique Pinon (o favorito de Jeunet), que aparece como cameo, é ainda mais triste), e o conhecimento de apenas cem anos atrás caiu no esquecimento (o jovem Léo não faz ideia de quem é Adolf Hitler).

O mundo robótico engoliu as pessoas, tornou-se parte integrante da vida, e é assustador observar como os personagens se comportam nessas condições. Não se quer torcer por nenhum deles durante todo o filme. Alice, excessivamente nostálgica e ingênua a ponto de irritar; Max, covarde e desonesto; Jennifer, estúpida e mercenária; Françoise, apaixonada por um androide; Léo, rebelde e irritante; e Victor, arrogante.
Por quem se preocupar? Pelo casal que nunca consegue fazer sexo, ou pelo casal que não consegue ir para um resort de luxo e não vive sem Wi-Fi? Em contraste, a personagem da incrível Marisol Fertar — a ligeiramente artificial Nina — parece um anjo inocente. Já os robôs domésticos (além da empregada Monique, há também uma cabeça ambulante chamada Einstein, dublada por André Dussollier, o primeiro robô obsoleto de Nina, que sabe jogar «Pedra-Papel-Tesoura», e um aspirador de pó sofisticado que lembra o WALL-E), que desejam compreender a profundidade da alma e aprender a fazer piadas, parecem mais humanos, embora um pouco vergonhosos. Mas torcemos muito mais por eles do que pelos «prisioneiros». Especialmente porque eles se esforçam sinceramente, até cometem erros, como os humanos.

Vale notar que Claude Perron, Alban Lenoir e François Levantal interpretaram os papéis dos androides de forma excelente e assustadoramente precisa. Rostos frios com sorrisos sem emoção nos olhos, movimentos corporais nítidos e cortantes são incrivelmente convincentes e causam medo no espectador. Mais uma vez, fica claro que a robotização global é uma má ideia. Ou talvez «Big Bug» funcione como os «Conselhos Perigosos» de Grigory Oster, só que de forma mais ampla? Tipo, façam o que quiserem, gente, e vejam aonde isso leva: os eletrodomésticos vão aprender emoções humanas, citar Shakespeare e pregar peças pesadas nas pessoas, enquanto vocês jogam com a falta de sinceridade, se degradam e aceitam tudo passivamente.
Qual é o veredito?
Depois de um hiato de 9 anos, Jean-Pierre Jeunet retorna a um cinema completamente transformado e se encaixa de forma incrivelmente orgânica com todos os seus recursos. «Big Bug» parece atual, engraçado e mordaz. Sim, às vezes o filme visualmente parece irregular, e em alguns momentos a mesma piada é repetida várias vezes, mas a farsa, a ação e a loucura que acontecem na tela impressionam.
A sátira francesa da modernidade feita pelo diretor é animada, mas o filme é mais assustador do que «O Exterminador do Futuro» de James Cameron, porque lá a humanidade pelo menos lutava, enquanto nesta revolta doméstica das máquinas, nós, como a esquecida Alemanha nazista, nos rendemos incondicionalmente.
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