
Uma versão feminina de «O Senhor das Moscas»? Um novo «Lost»? Um terror sobre canibalismo? Ou uma história de amadurecimento? «Vespas» é um espetáculo único, que deixa muitas perguntas, mas não permite desgrudar os olhos do ecrã.
Recentemente, o canal Showtime reportou recordes de audiência para a série «Dexter: New Blood». Mas este não é o único sucesso do Showtime — paralelamente ao projeto sobre o assassino em série, desenvolvia-se uma história igualmente impressionante sobre um time de futebol feminino cujo avião caiu em algum lugar do interior do Canadá. «Vespas» (Yellowjackets) revelou-se um novato ousado e ambicioso. Os showrunners planejaram a trama para 5 temporadas, então já partiram com tudo, mostrando logo de cara indícios de ocultismo e canibalismo, pós-terror e uma história de amadurecimento (coming of age) que se insinua entre eles. E essa aposta deu certo — o projeto tornou-se um sucesso imediato!
Uma versão feminina de «O Senhor das Moscas»?
1996. O time feminino de futebol «Vespas», após vencer o torneio regional, se prepara para ir ao campeonato nacional dos EUA, mas o avião delas cai em algum lugar numa floresta intransponível no território do Canadá. Agora, as garotas, seu treinador e mais alguns rapazes sobreviventes se veem em condições selvagens, sem ter de onde esperar por ajuda.
2021. Algumas mulheres que sobreviveram àquela história fatídica não querem lembrar do passado por dinheiro nenhum, mesmo com as ofertas dos jornalistas. Mas, de repente, são chantageadas por causa do que fizeram em 1996.
Os criadores da série «Vespas» não perderam tempo com uma premissa envolvente e já no episódio piloto (dirigido pela autora de «Jennifer's Body», Karyn Kusama) deram indícios de que as estudantes, em sua luta pela sobrevivência, chegaram às medidas mais extremas — o canibalismo. No entanto, quem foi a «vítima», quais as circunstâncias do ocorrido, se realmente foram as nossas heroínas — tudo isso se torna o mistério de toda uma temporada.
Os motivos de «O Senhor das Moscas» de William Golding obviamente não deixarão os cineastas em paz por muitas décadas. Podemos lembrar das recentes «Selvagens» (The Wilds), que já tentaram fazer uma troca de género e colocar meninas nas mesmas condições de sobrevivência. Mas «Vespas», ao contrário do show da Amazon e de muitas outras tentativas de reinterpretar «O Senhor», realmente aborda a questão de uma nova forma.
Primeiro, aqui não há uma, mas duas linhas narrativas. E elas se entrelaçam de forma muito hábil, permitindo, a cada vez, um novo olhar sobre as heroínas e seu desenvolvimento. Em certos momentos, isso até lembra um jogo de «encontre as 10 diferenças». E os motivos-chave de «O Senhor», como a luta acirrada pela primazia numa sociedade fechada, embora estejam presentes, são longe de serem os principais.
E é precisamente a presença da linha narrativa paralela que torna cada um dos ramos da história mais volumoso, interessante e imprevisível.
Em segundo lugar, «Vespas» mistura géneros de forma curiosa. Num episódio, a série se transforma num terror com corridas pela floresta, possessão e rituais misteriosos. Em certos momentos, é uma típica comédia romântica juvenil, com traições, fofocas e outros problemas adolescentes que colocam em segundo plano as questões de sobrevivência. Sim, isso também é possível numa série.
Além disso, a série aborda de forma interessante a existência pós-traumática dos personagens. Alguns preferem fugir da realidade com estimulantes. Outros fingem que nada aconteceu. Não há indiferentes.
Graças a essa mistura, mantém-se a dinâmica (inclusive narrativa). E é por isso que a série não deixa o espectador entediar-se.
Um novo «Lost»?
Mais um pouco sobre a trama. Como já notámos, os showrunners do projeto «Vespas» planearam a história para 5 temporadas. Portanto, não se surpreenda se, no final da temporada de estreia, muitas perguntas ficarem sem resposta. Às vezes, você pode até sentir o efeito de «Lost» — pode haver tantas teorias e suposições sobre a trama, e elas podem ser tão plausíveis, que a vontade de assistir cada vez mais não o abandonará de episódio para episódio. Por um lado, isso é fixe e motiva a continuar vendo. Por outro, sabemos como os criadores de Lost se enredaram nas próprias tramas no final. Resta esperar que «Vespas» não repita a história do seu lendário predecessor.
O elenco é o que torna a série notável
Além da trama e da empolgante mistura de géneros, «Vespas» cativa pelas atuações. Ambas as partes do elenco, que quase não se cruzam, são excelentes.
Dizem que as atrizes combinaram os mínimos detalhes das suas personagens, por isso nunca há dissonância entre as versões jovens e adultas dos personagens.
Christina Ricci, Juliette Lewis, Melanie Lynskey — cada uma delas conseguiu criar imagens femininas sólidas e, à sua maneira, fortes, não isentas de loucura e charme natural. Como poderia ser diferente, depois de 1,5 anos de sobrevivência na floresta selvagem com tudo o que isso implica?!
Ella Purnell, Sophie Nélisse, Sophie Thatcher destacaram-se entre os jovens. Deram à série energia, ingenuidade e um sopro de frescor. Foi sobre os seus ombros que recaiu a principal responsabilidade de formar os caracteres. E elas lidaram com isso como devia ser.
Vale a pena assistir à série «Vespas»?
O projeto da Showtime ficou cheio de mistérios. Já se encontram dezenas, senão centenas, de artigos na internet com teorias, análises de potenciais easter eggs e interpretações do que foi visto na primeira temporada. Isso mostra que os criadores conseguiram cativar o público com uma história envolvente, despertando neles o desejo de saber cada vez mais. Em grande parte, isso foi possível graças a um roteiro bem estruturado (embora não isento de falhas — os autores às vezes se empolgam demais com jogos mentais com a audiência), a um elenco magnífico e a uma combinação não banal de géneros.
Se você ainda não se juntou às fileiras dos fãs do show, é a altura certa para o fazer, para depois ficar a par do que todos estão a discutir.
Trailer:
Comentários
0Ainda não há comentários.
Entre para participar da conversa.