
O espetacular 'Beco dos Pesadelos' é mais um mergulho de Guillermo del Toro no mundo das fantasias, mas insuficientemente místico e assustador. As criaturas míticas já não são tão monstruosas, e o filme seduz pela imagem, mas não pela essência.
O mal nos filmes do famoso amante de monstros, o diretor Guillermo del Toro, nunca é algo irracional, sempre vem do ser humano. Em seu novo filme 'Beco dos Pesadelos', o cineasta concentrou toda a atenção nessa premissa. Um vigarista astuto e engenhoso — o protagonista chamado Stan Carlisle — está disposto a fazer qualquer acordo com a consciência por dinheiro. Por acaso, ele acaba em um circo itinerante, onde rapidamente aprende vários truques e golpes. No final, ele inicia seu próprio negócio como um habilidoso mentalista, enganando não mais americanos comuns, mas pessoas com status e economias.
Fugindo da realidade, Guillermo del Toro nos mergulha em um mundo de ilusões, revelando o véu do mistério da magia, mas, infelizmente, o que vemos nos bastidores não surpreende. Seus filmes sempre se destacaram por uma atmosfera única de misticismo, que falta justamente em 'Beco dos Pesadelos'; o truque não deu certo. Infelizmente, já no meio do filme, o espectador, quase como um médium profissional, entende qual destino aguarda o protagonista, então o clímax e o desfecho não conseguem chocar no final trágico.
O playground do novo filme é um lugar onde habitam os párias da sociedade, rejeitados e incompreendidos — tudo como o diretor gosta. Esse mundo é apresentado na primeira parte — a mais interessante do filme — mas depois o circo itinerante vai embora, e o herói fica. E então se desenrola um thriller sombrio com elementos de noir e psicologismo. 'Beco dos Pesadelos' é a segunda tentativa de adaptar o romance homônimo do escritor William Lindsay Gresham, a primeira ocorreu em 1947. A versão em preto e branco de Edmund Goulding durava uma hora e meia, e parece que esse tempo seria suficiente para o remake também, já que a duração volumosa de duas horas e meia não se paga nem com eventos nem com as ideias do diretor.
Os filmes de Guillermo del Toro atraem por suas criaturas míticas e monstros, mas aqui eles quase não existem, a não ser pelos artistas do teatro falido. Mas mesmo assim, sua monstruosidade reside em coisas comuns no século XXI: crueldade, calculismo e exploração das fantasias do público do circo. Se em 'A Forma da Água' ou 'Hellboy' del Toro buscava a resposta para a pergunta se é possível amar um monstro exterior que é mais humano e bondoso que o homem, em 'Beco dos Pesadelos' ele colocou no centro a ideia de quais demônios podem se esconder dentro daqueles que são exteriormente atraentes e simpáticos. E apesar da excelente atuação de Bradley Cooper, essa parábola clássica sobre a retribuição parece pouco convincente e previsível, como se já a tivéssemos ouvido tantas vezes que estamos cansados.
O enredo acabou sendo o ponto fraco de 'Beco dos Pesadelos', mas o filme compensa isso com o elenco. O diretor usou o orçamento substancial de 60 milhões de dólares e montou um elenco incrível. O cínico Bradley Cooper, a fatal Cate Blanchett, a tocante Rooney Mara, o favorito do diretor Ron Perlman, o sinistro Willem Dafoe e a incomparável Toni Collette — até Denis Villeneuve, cujo elenco estelar em 'Duna' não era menos impressionante, poderia invejar. Os atores criam personagens vivos, brilhantes e volumosos; é um prazer observar sua atuação.
A tão esperada 'Duna' de Denis Villeneuve finalmente chegou às telonas. Este slowburner de escala intergaláctica era aguardado pelos fãs da obra original (o filme é baseado no livro homônimo de F
Open materialO componente visual do filme também merece elogios. Guillermo del Toro mais uma vez demonstrou seu talento como artista. Reflexos de letreiros de neon, cenas dramáticas sob a chuva, escuridão impenetrável cortada por uma chama fraca de um fósforo, jogo de contrastes entre amarelo quente e azul frio, trabalho com claro-escuro — cada cena dá vontade de analisar quadro a quadro. Retratos expressivos, mise-en-scène precisas, composição equilibrada do quadro e cambalhotas da câmera durante as filmagens na feira — tudo isso cria uma imagem linda. Além disso, del Toro tratou com grande atenção o espírito dos anos 1940, transferindo para a tela os interiores estilosos do Art Déco, carros vintage e o mundo vibrante dos charlatães.
'Beco dos Pesadelos' está longe de ser o filme mais bem-sucedido do diretor mexicano em termos de desenvolvimento do enredo e construção de atmosfera. Ainda é a história favorita de Guillermo del Toro sobre os fracos e oprimidos, mas isolada e como que estilizada demais para o espírito da época. O filme ficou arrastado, mais pé no chão, sem o misticismo e a fantasia marcantes, se comparado aos trabalhos anteriores do autor. No entanto, o longa tem seu charme graças às soluções visuais e à atuação do elenco, e 'Beco dos Pesadelos' pode agradar se não se depositar grandes expectativas. Afinal, nos presentearam com um carnaval circense colorido, que há muito não se via nas telonas.
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