
O drama francês 'Triunfo' conta a história de prisioneiros que são convidados a se tornarem atores. Como a criatividade transforma suas vidas e o que um ator russo está fazendo em uma prisão europeia — todas as respostas estão nesta crítica.
O tema de como a criatividade pode transformar uma pessoa e sua vida, de forma profunda e irreversível, continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração. Mais uma reflexão em busca de respostas para essas questões é o drama francês 'Triunfo' de Emmanuel Courcol. Acontece que o filme chegou ao circuito mundial em agosto de 2020, mas só chegou à Rússia em dezembro deste ano (estreia nos cinemas em 23 de dezembro). É uma pena, porque o filme é interessante.
Esta é a história de um grupo de prisioneiros que tentam incutir o amor pela alta cultura. Em uma prisão francesa, cinco voluntários são convidados a experimentar o papel de artista. O pai-mentor no teatro é o ator fracassado Étienne, interpretado pelo talentoso Kad Merad, e seus pupilos são pessoas que não entendem conclusões mais complexas do que a moral das fábulas. O diretor de teatro propõe que os membros da 'companhia' encenem a peça absurda de Samuel Beckett 'Esperando Godot', e eles têm apenas seis meses para se preparar.
À primeira vista, 'Triunfo' não tem nada de particularmente novo. Um tema semelhante foi abordado pelo diretor russo Kirill Pletnev no filme 'Jgi!' sobre uma prisioneira que dava aulas de canto para sua supervisora. A história é um pouco diferente, mas a mensagem é basicamente a mesma: a arte pode transformar o mundo e o universo prisional, cheio de restrições e proibições. Até no filme de Tony Kaye 'O Substituto', com Adrien Brody, podemos notar traços comuns com 'Triunfo'. É a mesma história sobre a tentativa de incutir o amor pela cultura e pela arte, mas desta vez com alunos de uma escola problemática. Para eles, é também uma forma de evitar um futuro na prisão.
A particularidade do drama francês reside, antes de mais, no fato de a trama ser baseada em eventos reais. Em meados da década de 1980, o diretor de teatro Jan Jönson decidiu encenar uma peça com os presos da prisão sueca 'Kumla'. Esse histórico confere realismo ao filme e permite sentir uma empatia especial pelos personagens.
Através do comportamento e das falas dos personagens, o diretor de 'Triunfo', Emmanuel Courcol, mostra o choque entre o mundo habitual e o mundo onde as pessoas estão constantemente à espera: de visitas de familiares, de um passeio, do almoço, de um novo dia. Todo o filme é permeado não só pelo amor ao teatro, mas também pelas pessoas — todas elas, sem dividi-las entre boas e más.
Este é um filme sobre humanidade que nos faz refletir sobre a frequência com que julgamos um livro pela capa, ignorando o conteúdo. 'Triunfo' prova mais uma vez que as barreiras sociais separam as pessoas com muros invisíveis, mas a arte torna a todos iguais.
Neste filme, como em muitos outros com temática prisional, levanta-se a questão de recuperar o respeito próprio, não apenas dos outros, mas também de si mesmo. Intimamente ligada a isso está a história de autoaceitação e perdão pelos pecados cometidos. É interessante como os mundos de Étienne e das 'pessoas de terceira categoria', ao se unirem, não se opõem, mas se complementam. O ator, que estragou as relações com a família, volta a sentir-se útil, e a vida dos prisioneiros de repente ganha um propósito, eles encontram o seu próprio Everest alcançável.
Um bónus agradável de 'Triunfo' é Alexander Medvedev, que se encontra na companhia de prisioneiros franceses. O ator russo acrescenta um colorido cultural e uma pitada de outra mentalidade ao grupo restrito.
'Triunfo' é um filme-contrato, baseado na confiança entre o espectador, disposto a olhar para a arte da perspetiva dos reclusos sem julgamento, e o realizador, que fala numa linguagem simples sobre pessoas perdidas e esquecidas pela sociedade. Assim como Étienne confia na sua 'companhia' que eles não fugirão, aproveitando a oportunidade durante a digressão com a peça.
O vento tem sabor, — declara um dos prisioneiros, nostálgico pelo mundo fora das grades da prisão.
Se esquecermos todas as subtilezas e detalhes, a história em 'Triunfo' é uma espécie de adaptação livre do conhecido conto de fadas da Cinderela. Ou melhor, de cinco Cinderelas e um príncipe rechonchudo e barbudo.
'Triunfo' está nos cinemas a partir de 23 de dezembro.
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