
Afirmamos com responsabilidade que «Tic-tac... BOOM!» é o melhor musical deste ano. Vamos analisar porquê e qual a relação com o cenário americano dos anos noventa.
Sinopse
Jon Larson (Andrew Garfield) escreve o seu grande musical há oito anos, nos intervalos entre o trabalho como empregado de mesa num restaurante e a assistir às apresentações de dança da sua namorada Susan (Alexandra Shipp). Finalmente, a sorte sorri-lhe – surge a oportunidade de apresentar o seu trabalho aos principais produtores da Broadway.
A situação complica-se porque Susan planeia mudar-se para trabalhar como professora e quer que Jon a acompanhe. Agora, Jon precisa de encontrar financiamento, preparar uma nova canção para a apresentação e chegar a um compromisso na relação – tudo isto num contexto de uma epidemia de SIDA em crescimento…
«Tic-tac... BOOM!» como uma canção de amor à Broadway
É fácil perceber porque é que o ator e compositor Lin-Manuel Miranda escolheu para a sua estreia na realização precisamente «Tic-tac... BOOM!», o trabalho autobiográfico (embora embelezado) de Jonathan Larson. Ambos os autores trabalharam durante muitos anos nos seus magnum opus (Larson em «Rent», Miranda em «Hamilton») e receberam prémios Tony e Pulitzer pelas suas criações, sendo que Larson foi póstumo.
Ao longo de todo o filme, tive a sensação de que, apesar do caráter biográfico, Miranda estava a filmar sobre si próprio e os seus sentimentos – e, ao mesmo tempo, abordou a adaptação com a máxima responsabilidade, acrescentando alguns factos adicionais da vida real de Larson. Esta mistura deu a «Tic-tac... BOOM!» uma alma e sinceridade.
Gostaria de destacar uma cena a meio do filme que é um deleite para os olhos de qualquer fã de produções da Broadway. Nela, não só ouvimos uma canção extremamente divertida, como também vemos um grande número de participações especiais de atores teatrais de renome: André De Shields («Hadestown»), Phillipa Soo e Renée Elise Goldsberry («Hamilton»), os lendários Joel Grey («Cabaret») e Bernadette Peters (mais produções do que se pode imaginar), o próprio Lin-Manuel – e estes são apenas os que reconheci de imediato.
Trabalho de atuação
Falando em atores – há muito a dizer. Se os atores secundários de «Tic-tac... BOOM!» fazem um excelente trabalho (especialmente Shipp e o amigo de Lin-Manuel Miranda, Robin de Jesús), vale a pena destacar dois trabalhos que brilham como diamantes ao sol.
O primeiro é, sem dúvida, Andrew Garfield. Garfield fundiu-se completamente com a sua personagem – e isto sem mencionar que o seu talento vocal surpreende profundamente. A química entre o realizador e o ator principal é evidente. É preciso coragem para confiar num realizador estreante como Andrew fez. A Netflix nomeou Garfield para o Óscar de forma totalmente merecida; vamos torcer por ele.
O segundo é o pequeno papel de Bradley Whitford, que em apenas alguns episódios nos mostrou o grande e poderoso Stephen Sondheim, um dos melhores compositores e letristas que o mundo já viu. O mais impressionante é que talvez nem repare, mas o ator transmitiu de forma tão precisa os gestos e entoações característicos que apetece aplaudi-lo.
Contexto histórico
O que distingue «Tic-tac... BOOM!» de qualquer outra obra sobre um criador atormentado e incompreendido?
Em primeiro lugar, o próprio contexto histórico, que desempenha um papel crucial – especialmente quando se sabe que Larson realmente passou pela perda de amigos devido ao VIH e SIDA, que assolavam Nova Iorque nos anos oitenta e noventa. Isto causou tal impressão no ainda jovem autor que se tornou um dos temas principais do musical «Rent», cuja produção ainda é encenada periodicamente em algum teatro.
Em segundo lugar, o filme não tem medo de mencionar pessoas reais, o que confere autenticidade ao que se passa. Se não percebeu, isto é uma introdução a uma breve conversa sobre Stephen Sondheim, que é uma personagem ativa no filme, gravou ele próprio uma participação especial de áudio e nos deixou literalmente ontem, a 26 de novembro de 2021, aos 91 anos (a autora do artigo está de luto profundo).
Sondheim teve uma influência imensurável na Broadway contemporânea, foi mentor de Larson na sua juventude e colaborou com sucesso com Lin-Manuel Miranda. Poderá conhecer as suas magníficas obras «Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet» e «Into the Woods». A sua presença no filme é como uma despedida para todos os que amam e respeitam o seu trabalho. Mais uma perda irreparável deste ano.
Conclusão
Ainda não dissemos nada sobre as canções. São maravilhosas. Estão perfeitamente entrelaçadas na narrativa. Ajudam tanto a avançar a história como a fornecer contexto sobre o estado emocional das personagens. Elas e a forma como «Tic-tac... BOOM!» as trata fazem deste o melhor musical do último ano. Raios, lembrando «Os Miseráveis» e «Cats» – o melhor dos últimos anos.
A todos os amantes de musicais e de bom cinema, simples, bondoso e luminoso – é de visionamento obrigatório.
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