
Histórias simples podem ser muito difíceis de contar. E, às vezes, a história mais simples pode ressoar na alma do espectador muito mais fortemente do que a mais intrincada e metafórica arte cinematográfica, com uma infinidade de personagens profundos e reviravoltas complexas. Os novos 'Caça-Fantasmas' são extremamente simples – e essa é a sua principal graça.
Sobre o enredo
Callie (Carrie Coon) está passando por maus bocados. Não há dinheiro suficiente para pagar o apartamento, o filho Trevor (Finn Wolfhard) está lidando com a crise da adolescência, e a filha Phoebe (Mckenna Grace) tem dificuldades de socialização e só se interessa por ciência.
De repente, eles herdam uma velha fazenda em Oklahoma do pai de Callie, que fugiu de casa há muito tempo. Agora, eles não só precisam colocar a fazenda em ordem e tentar se estabelecer no novo lugar, mas também desvendar o passado familiar para evitar uma catástrofe no futuro...
'Caça-Fantasmas' e suas continuações
Vamos encarar a verdade – depois do pesadelo que foi o infame 'Caça-Fantasmas' (2016), só o mais obstinado otimista continuava acreditando na franquia. Nem a presença de atrizes de comédia razoáveis, nem o respeitável 'Missão: Madrinha de Casamento' no portfólio do grupo criativo, nem as participações especiais dos caçadores originais salvaram a obra de Paul Feig.
Uma leve esperança de que o próximo filme não seria igualmente espetacularmente ruim foi plantada pela notícia de que o diretor seria Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, que esteve à frente dos primeiros filmes da franquia.
E o que obtemos? Na prática – um remake do primeiro filme, adaptado às realidades modernas. Quase – uma excelente, emocionante e muito divertida aventura para todas as idades. Um enredo maximamente clássico (tudo de acordo com a teoria da 'jornada do herói'), que faz deste filme uma ótima opção para uma noite em família, mesmo daqui a alguns anos.
Apesar da diferença de gêneros, 'Caça-Fantasmas: O Legado' me lembrou muito o filme 'It: A Coisa' de 2017. Subúrbio, filtro amarelo, fenômenos paranormais que crianças carismáticas tentam desvendar. E, ainda que se reconheça a inspiração, só podemos nos alegrar com o quão apropriadamente ela se encaixou em uma história completamente diferente.
Referências e easter eggs
Pelo fato de os novos 'Caça-Fantasmas' darem continuidade aos filmes originais, e não ao reboot de 2016, veremos muitas referências e até mesmo empréstimos diretos de ideias.
Posso imaginar um número considerável de espectadores que, ao sair do cinema, dirão: 'Este filme é muito derivativo! Fan service descarado e insolente em estado puro!'. E posso entender de onde viria esse ponto de vista. De fato, desde pequenas referências e citações até grandes reviravoltas na trama – a citação está em toda parte.
Por que isso não é tão ruim? Primeiro, todas as citações são pertinentes e se encaixam perfeitamente na lógica geral do que está acontecendo. Fan service descarado é um easter egg por si só, não para um propósito maior, e é difícil acusar o novo filme disso. Aqui, todas as 'armas de Tchekhov' dos easter eggs, de uma forma ou de outra, disparam. Segundo, o novo filme pode ser assistido sem conhecer os antecessores. Portanto, as cenas espirituosas serão apreciadas até mesmo por aqueles que não perceberem as citações.
Isso é muito bom, magistralmente feito e funciona a favor do filme.
Personagens
'Caça-Fantasmas: O Legado' conseguiu fazer o que muitos, mesmo os diretores mais renomados, nem sempre conseguem. Ou seja, nos dar personagens que são interessantes de observar. De uma forma ou de outra, todos os personagens importantes nos foram revelados, cada um teve seu caráter desenhado e foram colocados diante de objetivos que tentam alcançar.
Gostaria de destacar especialmente a atuação surpreendentemente boa de Mckenna Grace. Crianças raramente conseguem carregar o papel principal em seus ombros frágeis, mas Mckenna lida com isso com facilidade. Lembrem-se das minhas palavras, em breve veremos essa atriz na tela com a mesma frequência que seu parceiro Finn.
Os personagens secundários não só não decepcionaram – às vezes eles roubam completamente a cena. O colega de Phoebe na escola de verão, chamado Podcast, interpretado por Logan Kim, ficou surpreendentemente bom. Não está claro se é por causa do jovem ator carismático, dos bons diálogos, da química entre ele e a protagonista, ou uma combinação de todos os fatores.
Além disso, o talento cômico de Paul Rudd, que está em seu elemento, não pode deixar de agradar. Ele é magnífico.
Conclusão
'Caça-Fantasmas: O Legado' é um verdadeiro cavalo escuro, em que ninguém apostava, e que conseguiu cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. É um exemplo de como se pode e deve fazer remakes/reboots/sequências muitos anos depois. Um filme simples e despretensioso que presta homenagem aos seus antecessores e agradará o novo espectador.
Além disso, o filme é surpreendentemente bonito, o grotesco é apresentado com bom gosto, há algumas participações especiais muito inesperadas e, por isso, hilariamente engraçadas (que não vou estragar, pois nem mesmo o Kinopoisk as estraga), sem contar as participações especiais bastante esperadas, que foram até aplaudidas na nossa sala.
Sem dúvida, recomendado para cinéfilos de todas as idades.
E se você gosta dos filmes originais, não se esqueça de ficar para a cena pós-créditos.
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