
No AMFest, foi exibido o drama de fantasia de Karen Cinorre, 'Sinal de Socorro', que será lançado online em 2 de novembro. Contamos se o filme vale a pena.
Para Karen Cinorre, 'Sinal de Socorro' é seu primeiro longa-metragem como diretora (ela também escreveu o roteiro). O filme foi exibido na programação principal de Sundance e agora chega ao público brasileiro. Contamos como foi a estreia e se os comentários do trailer correspondem à realidade.
O texto pode conter spoilers.
Qual é a história?
«Maria. Alfa. Yankee. Delta. Alfa. Yankee» — palavras que abrem o filme. Na tela, um soldado salta de paraquedas. Atravessando as nuvens, a câmera se aproxima rapidamente da superfície da água e... a protagonista (Grace Van Patten) acorda com uma batida na janela do carro. Quem a acorda é Dmitri (Theodore Pellerin), pois é hora de começar seu turno como garçonete no salão de banquetes.
Hoje acontecerá um casamento luxuoso. A organização deve ser impecável. Ana, amassada, entra no local, e Dmitri se transforma de cozinheiro em músico. O turno da noite terminou, e agora ele tocará no casamento. Os preparativos estão quase concluídos, mas uma tempestade corta a eletricidade. O noivo está insatisfeito, a equipe se agita tentando resolver o problema, e a noiva confusa pede a Anastasia que a ajude a ir ao banheiro. Pela aparência, a garota não quer se casar.
Nesse momento, o maître, sempre irritado com a protagonista, invade o banheiro feminino e mais uma vez desconta sua raiva em Ana, lembrando-a de que ela não é ninguém. Os nervos de Anastasia não suportam a pressão e o tratamento cruel da chefia, e, no final, a garota entra em um armário, mas não de roupas, e sim de forno.
Como nos livros de Clive Lewis e Lewis Carroll, Anastasia é transportada para um lugar de conto de fadas. Agora ela está em uma ilha, cercada por um oceano infinito. Neste mundo, há uma guerra cruel entre mulheres e homens.
Anastasia é recebida na praia por uma garota com o rosto da noiva, chamada Marsha (Mia Goth), que a leva a um submarino-base militar abandonado, onde Ana conhece Beatrice (Havana Rose Liu) e Gertrude (Soko).
A garota recebe um uniforme militar e se junta às fileiras da resistência. Agora, as quatro amazonas devem enfrentar todos os indivíduos do sexo masculino. As sereias modernas, usando um rádio, enviam um sinal de socorro, e os homens que respondem são direcionados diretamente para a tempestade.
O que está acontecendo?
Em geral, está claro qual é a pauta do filme. É uma fantasmagoria da diretora sobre o tema do feminismo. As mulheres são fortes e independentes. Elas podem se defender e sobreviver em um mundo cruel, mas para isso precisam se unir e juntar forças contra o inimigo comum — os homens. Sozinhas, atrás de portas fechadas, são fracas, mas juntas superam qualquer obstáculo.
Em nossa sociedade, o feminismo é um tema bastante importante e necessário. Qualquer pessoa sensata não deve torcer o nariz ou cuspir quando se trata dos direitos das mulheres. Todos devem ter as mesmas condições, independentemente do gênero, mas em 'Sinal de Socorro' isso é apresentado de forma muito radical, grosseira e inábil.
Desde o início do filme, o espectador não recebe nenhuma informação. Sobre Anastasia, além de que ela trabalha como garçonete e que a chefia a humilha sem motivo, nada se sabe. Quem é ela? Por que dorme no carro? Quem é Dmitri para ela? (Embora, se lembrarmos do desenho animado 'Anastasia', essa pergunta desapareça).
Na prática, para os espectadores, Ana realmente não é ninguém, pelo menos é essa a imagem que se pinta no mundo real. Quando ela é transportada para um lugar inspirado em Nárnia, País das Maravilhas e Terra de Oz, ela se torna parte do coletivo. Por assim dizer, de 'ninguém' ela se transforma em 'alguém', embora não esteja claro em quem. Nem Anastasia nem os espectadores recebem explicações novamente. O que está acontecendo? Por que há uma guerra dos sexos? Por que não capturar alguém e conversar? Por que, afinal, ninguém sente necessidade de comer durante todo o filme?
Após uma breve integração ao grupo, Ana fica desconfortável novamente, pois Marsha não é quem aparenta ser. Quando Anastasia começa a duvidar e a fazer perguntas, a líder da resistência feminina se revela uma manipuladora.
Acontece que ela está disposta a enganar e trair para alcançar seu objetivo. A garota se fazia de protetora, mas assim que Ana decide seguir seu próprio caminho, Marsha a lembra de que Anastasia não é ninguém. Novas perguntas surgem. Por que Marsha é tão cruel? O que a motiva? Quem é ela realmente?
Pode-se dizer: 'Mas isso é fantasia. Aqui o autor é Rei e Deus. Ele criou este mundo, então tem o direito de decidir o destino dos heróis como quiser. É o mundo dele, ele inventa as leis aqui'. Ninguém discute, mas as leis precisam ser explicadas, caso contrário, a criação não será compreendida por ninguém. Uma guerra não pode simplesmente existir. Tudo tem um começo, será que é tão difícil informar o espectador? Sem mencionar as outras perguntas feitas.
E assim, ao longo de todo o filme, tanto o espectador quanto Anastasia são atormentados pela incompreensão, mas, se algumas perguntas recebem respostas vagas, a maioria permanece no ar, como pássaros negros sobre a ilha.
Rosto familiar... Onde já vi você?
Pessoas com rostos do mundo real encontram a heroína constantemente na ilha. O confeiteiro, o fotógrafo e até a faxineira estão envolvidos nesta guerra dos sexos. E não fica claro se a ilha é a vida após a morte de Anastasia, que cometeu suicídio com a ajuda do forno, ou uma imagem criada por seu cérebro, que incluiu rostos familiares. A heroína é conectada à realidade por sonhos, onde, como se repetisse uma cena de 'Solaris', ela dirige por um túnel, no final do qual certamente haverá uma luz que traz a revelação.


No entanto, os rostos de Beatrice e Gertrude não são vistos no mundo real. Considerando esse fato e levando em conta que, no início do filme, o confeiteiro menciona duas supostas antecessoras de Ana que não suportaram o trabalho, pode-se supor que Bea e Gert são essas antecessoras. As garotas foram transportadas para a ilha antes de Anastasia. Além disso, as três têm nomes bastante incomuns e sonoros, e na ilha cada uma desempenha seu papel.
Beatrice estuda o clima e lança balões meteorológicos para saber com antecedência onde a tempestade está furiosa no mar. Ela, como a musa de Dante, é uma guia para o Paraíso para as mulheres. Para os homens, o caminho não é tão colorido.
Gert, provavelmente, é uma referência a Gertrudes de Nivelles, que era considerada a protetora dos viajantes. Mas, como no caso de Beatrice, a proteção se aplica apenas às garotas. Os viajantes do sexo masculino recebem coordenadas onde dificilmente sobreviverão.
Ana é uma metáfora óbvia para a princesa Anastasia Romanova, que, segundo a lenda, conseguiu escapar milagrosamente das garras da morte e viver uma vida feliz no exterior.
Apesar de toda a metáfora, o filme continua bastante grosseiro e deselegante. É compreensível que o cinema de festival às vezes seja incomum e estranho, mas 'Sinal de Socorro' deixa a declaração grosseira da diretora na superfície e preenche com profundidade lugares completamente errados. No filme, com duração mediana, os personagens não têm tempo de se desenvolver, mas há muitas cenas desnecessárias e incompreensíveis.
Por exemplo, não está claro por que, no meio da narrativa, o filme se transforma em um musical por alguns minutos. Os soldados dançam e pulam de forma ridícula e depois desaparecem abruptamente. Por um lado, a cena pode ser interpretada como uma alucinação da heroína, mas depois dos delírios não restam coisas reais que lembrem o ocorrido. Como resultado, a cena apenas adiciona perguntas e confunde ainda mais.
Os olhos se alegram, os ouvidos murcham
Para ser sincero, visualmente o filme é muito bonito. A câmera do diretor de fotografia Sam Levy mostra paisagens maravilhosas da ilha e vastas extensões marítimas. Mas o principal que a câmera destaca é a beleza feminina. As atrizes na tela estão deslumbrantes. O diretor de fotografia capta os reflexos do sol nos rostos das garotas, filma os cabelos ao vento, demora-se nas cenas de banho e admira os movimentos da protagonista debaixo d'água. Sam Levy simplesmente aprecia a feminilidade que preenche o filme e compartilha suas observações com o espectador.
No entanto, o que é agradável aos olhos, os ouvidos não entendem, e o filme tem problemas com o som. A voz não se mistura com os estímulos externos, mas é sobreposta. Não importa o que aconteça na tela, a fala dos personagens será mais alta que os tiros, o vento e as ondas.
As palavras de abertura também são ouvidas com frequência pelo espectador ao longo do filme. Se lermos as primeiras letras das palavras, obtemos 'MAYDAY' (título original do filme), exatamente o sinal de socorro que o Titanic enviou em abril de 1912.
As garotas o usam para atrair a atenção dos homens e direcionar suas embarcações (aéreas e aquáticas) para o epicentro da tempestade. Elas fazem isso sob o lema 'Ninguém deixará uma garota em apuros, então alguém certamente responderá'. E essa frase foge completamente de toda lógica. Se os homens não são tão maus e nunca deixariam uma garota em apuros, por que vocês, como amazonas, matam brutalmente cada um deles? Por que vocês acham que do outro lado do rádio estão inimigos? O espectador não receberá resposta. Aparentemente, as palavras de abertura agem nas garotas como no Soldado Invernal: 'Enferrujado. Dezessete. Amanhecer. Forno...'.
Em geral, há muitas frases duvidosas que ferem os ouvidos no filme. Por exemplo, a declaração de Marsha: 'Heroína e psicopata são a mesma coisa'. Bem, como isso se relaciona com os conceitos de feminismo? O que dizer das frases sexistas 'As garotas passam a maior parte do tempo na cozinha' e 'Você luta como uma garota'. Ouvir isso em um filme que, em tese, celebra o feminismo é, no mínimo, estranho.
E no final?
Concluindo, gostaria de dizer que Karen Cinorre fez uma estreia bonita, mas muito mediana, repleta de referências e metáforas que não se sabe como ou para que funcionam. A atuação em 'Sinal de Socorro' não brilha particularmente. Apenas Juliette Lewis se destaca do conjunto. A pauta feminista ficou grosseira e ridícula, e o filme, incompreensível, ilógico e inábil. Tudo o que a estreante quer dizer soa em uma frequência onde quase não há chance de ser ouvida. E, no final, a diretora sucumbe à manipulação de sua própria heroína. Marsha diz orgulhosamente: 'Pare de se atormentar, faça isso com os outros', e Cinorre atormenta os espectadores.
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