
«Introdução» é um drama coreano sobre os erros da juventude, que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cinema de Berlim.
No filme «Introdução», há três histórias unidas por um enredo:
- Passado. Um jovem rapaz vai ao trabalho do pai abastado para vê-lo pela primeira vez em muito tempo. Mas não consegue, pois o pai tem uma sessão de acupuntura marcada com um ator de teatro popular. A cena termina com um abraço entre o jovem e a secretária, por quem ele era apaixonado desde a infância.
- Presente. Uma futura estudante chega a Berlim com a mãe para conhecer uma artista disposta a acolher a moça durante os estudos. Aqui também está o jovem da primeira história – seu namorado, que decidiu fazer uma surpresa à amada. O final — abraços que unem o jovem casal.
- Futuro. O rapaz vai à Coreia para almoçar com a mãe à beira-mar. Aqui também está o ator da primeira história, pronto para ensinar sua arte ao jovem. Nesta parte, descobrimos como terminaram o relacionamento do rapaz e da moça, bem como sua carreira de ator. O filme termina novamente com abraços, mas desta vez em um sonho.
Sobre a figura do diretor
Ultimamente, o cinema coreano se tornou mais popular, especialmente nos países da CEI. A vitória de «Parasita» no Oscar não apenas abriu novos horizontes para o cinema nacional, tornando-se um dos principais eventos de sua história, mas também influenciou a indústria mundial. A popularidade de filmes voltados para um público mais restrito também aumentou: em 2020, Hong Sang-soo ganhou o prêmio de melhor direção em Berlim, e a editora «Seance» lançou uma edição especial dedicada ao diretor.
Hong Sang-soo é um daqueles diretores que conseguem lançar vários filmes por ano, sem uma queda brusca na qualidade. No ano passado, dois projetos do cineasta foram incluídos na lista dos melhores filmes do ano, segundo a conceituada revista «Cahiers du cinéma».
É interessante também que cada filme de Hong possui uma atmosfera única, apesar da presença de temas semelhantes. Combinando diferentes técnicas de direção, Hong faz filmes sobre pessoas e suas «aventuras» cotidianas. Por exemplo, seu filme anterior, «A Mulher que Fugiu», era dedicado a três conversas das quais participa uma moça, que fica sozinha pela primeira vez em vários anos.
Nos filmes do coreano, os heróis sempre dominam o mundo ao seu redor: às vezes, as imagens dos personagens podem transitar de um filme para outro, o que os conecta. Mas, mesmo assim, é fascinante explorar as locações do mundo de Hong. Personagens menores, que aparecem por alguns minutos, podem ter papéis importantes nos filmes: no último Festival de Cinema de Berlim, todos os críticos comentaram a aparição de um gato de rua por um minuto, que roubou a cena dos atores profissionais.
Sobre a melancolia e o sentido elusivo do filme «Introdução»
«Introdução» — é o novo filme em preto e branco de Hong Sang-soo, filmado em um curto período de tempo pelo próprio cineasta. Neste novo trabalho, ele assumiu vários papéis: diretor de fotografia, roteirista, diretor e até compositor do filme. Essa decisão pode ser explicada não apenas pelos tempos de quarentena (o projeto foi filmado no auge da pandemia), mas também pela presença da personalidade do diretor no filme. Neste novo trabalho, Sang-soo tentou se afastar de seu filme anterior. Isso é indicado não apenas pela leveza da dramaturgia («Introdução» é um dos filmes mais simples do diretor, sem «segundas intenções»), mas também pela ausência de qualquer paleta de cores. A atenção da câmera, e consequentemente do espectador, ao longo de todo o filme será voltada exclusivamente para os personagens, o que é auxiliado pelo característico zoom.
Na tentativa de «purificar» seu estilo, expressa-se também um dos temas principais do filme — o isolamento do mundo exterior, o que parece curioso também no contexto do próprio Festival de Berlim. Ele ocorreu em dois locais: a mostra para críticos aconteceu em fevereiro na internet, e o público pôde ver os melhores filmes ao vivo no início do verão. O papel central em «Introdução» é desempenhado pelos abraços dos heróis e suas conversas perto do mar — algo que atualmente é inacessível para a maioria dos habitantes do planeta. Daí também as previsões dos críticos, que supunham que o novo projeto de Hong levaria o prêmio principal do festival, nem que fosse por sua relevância.
Não foi o caso. «Introdução» recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro. Essa decisão provavelmente levantará muitas questões entre os espectadores. Começando pelo título, o sentido de tudo o que acontece se perde em sua simplicidade. Para que serve essa introdução? Talvez para a vida adulta, já que a maioria dos personagens são jovens estudantes que pioram suas vidas com decisões impensadas. Talvez seja uma introdução a uma nova fase na obra do diretor, já que ele se afastou ao máximo dos fundamentos de seu estilo. E será que o título tem algum sentido?
O mesmo se aplica ao conteúdo. A melancolia de «Introdução» pode levantar muitas questões para o espectador que decidiu assistir ao filme para conhecer o diretor. Entender que os três blocos podem estar unidos por algo é bastante difícil se você não tiver assistido a nenhum trabalho anterior de Hong. Ainda mais difícil é acompanhar todas as reviravoltas do filme, cuidadosamente escondidas nos tons de preto e branco, e captar seu sentido. «Introdução» é um filme sobre tudo no mundo: sobre a ecologia do nosso planeta, sobre os primeiros relacionamentos, sobre a solidão, sobre a importância da cultura para o nosso mundo.
Talvez, o principal problema do filme seja a abertura de seu final. Praticamente não recebemos detalhes sobre os destinos futuros dos heróis, o que pode causar um certo desconforto. A curta duração indica que Hong não estava tão interessado em filmar «Introdução», mas sim que era necessário. No entanto, mesmo esse fato não significa que o novo projeto do coreano seja um filme medíocre, capaz apenas de decepcionar.
Trailer:
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