
Contamos por que 'Viúva Negra' não foi o filme que todos esperavam há tanto tempo.
Vários anos de espera. Alguns adiamentos da data de estreia. E finalmente, no dia 8 de julho, chega aos cinemas o filme «Viúva Negra» (Black Widow), o primeiro filme solo da amada heroína do universo cinematográfico da Marvel. A heroína com quem já nos despedimos no final de «Os Vingadores», mas sem lhe prestar as devidas homenagens.
Havia esperanças de que o filme solo ajudasse a desenvolver plenamente a personagem já icónica e a despedi-la condignamente (e, claro, dissipar o «mistério de Budapeste»). Infelizmente, essas esperanças não se concretizaram. Mas, para não sermos infundados, vamos analisar detalhadamente os fracassos do filme.
Vilão sem motivação, Treinador = Mandarim e outras falhas do enredo
O enredo do filme «Viúva Negra» começa no ponto em que os Vingadores se separam devido a divergências sobre o Acordo de Sokovia, e Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) está foragida. A jovem procura isolamento e esconde-se dos asseclas do General Ross (William Hurt) na remota Noruega. Mas, como se costuma dizer, a paz é apenas um sonho. Ela recebe uma mensagem da sua há muito esquecida «irmã adotiva» Yelena (Florence Pugh), e junto com ela, um inimigo misterioso e fortemente armado que copia as suas técnicas de luta (e não só). Tudo isto indica que a Viúva Negra terá de enfrentar os fantasmas do passado que tentou em vão esquecer.
Sobre o passado da heroína no universo cinematográfico, sabemos apenas superficialmente, através de pequenos flashbacks e fragmentos das suas falas noutros filmes. Portanto, é lógico que o filme solo se baseie na sua história de origem. Outra questão é o quão bem-sucedido isso foi.
Em primeiro lugar, os autores do filme, liderados por Cate Shortland, não conseguiram manter um equilíbrio claro entre o lado trágico da trama, os elementos cómicos e o pão e circo. As conversas sobre o passado sombrio da heroína são substituídas por cenas cómicas estúpidas, e as piadas sem graça tentam infiltrar-se mesmo nos episódios mais emocionantes do filme. Já vimos algo semelhante em «Doutor Estranho», onde, um minuto após a morte de uma das personagens centrais, havia piadas inoportunas com a capa. Não se pode jogar assim tão bruscamente com as emoções do público. Isso anula completamente os méritos de elementos individuais e causa apenas perplexidade.
Em segundo lugar, o nível de absurdo de algumas decisões do roteiro do filme «Viúva Negra» é simplesmente exorbitante. Por exemplo, alguns movimentos são literalmente copiados das primeiras partes de «Missão: Impossível» (uma referência fraca em termos de roteiro, não acham?), e com o Treinador, um génio tático e uma das personagens mais estilosas e não triviais dos quadrinhos da Marvel, foi tratado quase da mesma forma que o Mandarim no terceiro «Homem de Ferro». Este herói não tem nada em comum com o herói das publicações em papel, exceto alguns atributos externos. E mesmo o design alterado do traje do Treinador evoca mais associações com um motoqueiro com uma imaginação excessivamente fértil.
Em terceiro lugar, o desejo de se enquadrar na agenda dos filmes do MCU irrita cada vez mais. Lembram-se do episódio dos Vingadores finais em que todas as personagens femininas aparecem subitamente no mesmo ponto do campo de batalha e salvam o Homem-Aranha com estilo? Aqui há uma cena feminina igualmente absurda, e o principal antagonista diz a sério que as raparigas são um recurso abundante na Terra. Estão a brincar?
Falando do antagonista. Ele é totalmente desprovido de qualquer motivação minimamente adequada. Fizeram dele uma espécie de função fictícia que deveria despoletar a heroína principal, mas não conseguem envolver o espetador nesse jogo. Pode-se supor que, na manhã seguinte à visualização, nem se lembrarão do nome dele.
A última coisa a dizer sobre o enredo é o mistério de Budapeste. Sim, foi revelado. Mas o hype em torno deste tema criou expectativas inflacionadas, por isso o que nos foi mostrado no filme de Shortland dificilmente satisfará as exigências do público. Mas pelo menos não se esqueceram disso, e já é um agradecimento.
Problemas com o aspeto técnico e nenhum realismo
Os filmes do universo cinematográfico da Marvel podem ser criticados por muitas coisas, mas a execução técnica é quase sempre impecável. É ainda mais estranho o que a «Viúva Negra» nos mostrou. Desde os primeiros minutos, deparamo-nos com uma edição pouco convincente e extremamente fragmentada, no mau sentido. Alguns episódios parecem uma colagem de takes aleatórios feita por um principiante.
Não há gráficos verdadeiramente dignos de arrancar os olhos no filme, mas também não há nada que fique na memória ou que prenda o olhar. Ao mesmo tempo, o terço final do filme lembra um pouco o segundo «Mulher-Maravilha» com a sua agitação caótica de tudo e todos no ecrã. A propósito, se esperavam de «Viúva Negra» algo mais pé no chão e próximo de um filme de espiões realista, ao estilo do segundo filme do Capitão América, vamos desapontá-los: realismo é algo que não existe aqui, e a heroína, na maior parte do tempo, mais parece um ciborgue indestrutível que, além disso, sabe voar.
Vale a pena assistir ao filme «Viúva Negra»?
O trabalho de Cate Shortland tem pontos positivos: o excelente David Harbour no papel do Guardião Vermelho distribui carisma a torto e a direito, a simpática e encantadora Florence Pugh forma uma dupla digna com Scarlett Johansson, que, como sempre, não levanta qualquer questão, e algumas piadas no filme são realmente engraçadas.
Mas todas as desvantagens descritas acima pesam significativamente mais. E isto sem sequer mencionarmos os clichés: a maior parte das personagens na trama são russas, o que significa que a melancolia russa (ou melhor, as tentativas de a retratar) e a vodca em excesso estão incluídas. E como não?
No final, há uma sensação de desilusão, mas o que é ainda mais frustrante é o facto de a Viúva Negra e Scarlett Johansson se despedirem do universo cinematográfico da Marvel desta forma. Elas mereciam, sem dúvida, muito mais.
Trailer:
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