
Explicamos por que «Ichchi», embora comece como um terror típico, é um filme colorido e cativante.
O fenômeno do cinema iacutiano tem se manifestado de forma surpreendente ultimamente. Esses filmes se assemelham, em seus traços positivos, ao cinema americano, e não ao cinema russo clássico, que copia mal o americano. E «Ichchi» de Kostas Marsan é uma prova clara disso.
Dia-noite-manhã
A dimensão mais abrangente do filme são as 3 etapas da morte de uma pessoa. Em muitas culturas pagãs, elas são apresentadas exatamente dessa forma: vida, limbo (transição), morte (esquecimento). Todos os eventos do filme ocorrem em apenas um dia, no qual nos é mostrado esse ciclo de vida completo.
Dia: a clássica premissa do terror
O filho mais velho, que mora na cidade, chega com sua esposa e filho à casa dos pais idosos, situada no meio da floresta. O irmão mais novo vive com os velhos, ajudando-os nas tarefas domésticas; é quieto, antissocial e não fica muito feliz com a chegada do parente da cidade, ao contrário dos pais, que o adoram.
O conhecimento dos personagens e as histórias assustadoras contadas pela avó fazem com que a nora (e, com ela, os espectadores), que já se sente uma estranha na casa dos sogros, fique ainda mais tensa. E ainda há a criança — a ferramenta favorita dos diretores de terror, que imediatamente começa a despertar suspeitas no espectador experiente.
Na premissa, destaca-se a câmera na mão de Leonid Nikiforenko, trêmula e vagando pelos rostos dos personagens. Dessa forma, o espectador quase sempre vê os acontecimentos em primeira pessoa, exceto nos planos gerais estáticos das paisagens, ao fundo das quais os eventos ocorrem.
No início de «Ichchi», desenvolve-se um drama doméstico ao fundo, revelando o motivo da chegada do filho mais velho e mostrando as relações de todos com todos. Nada de misticismo, apenas o cotidiano. E um cotidiano muito triste, ao estilo de Bykov: o marido maltrata a esposa, a mãe desaprova a nora, revirando os olhos e suspirando sempre que possível, o filho mais novo é deixado de lado e visto apenas como mão de obra. Os personagens da história são humanizados de tal forma que você começa a acreditar que eles realmente existem. Mas então a noite cai...
Noite: medo do escuro
Uma das soluções mais bonitas que notei em «Ichchi» é o trabalho com a luz na escuridão. Assim como a estrutura principal «dia-noite-manhã», a noite se divide em fragmentos lógicos, não pelo tempo, mas pelo volume e pela natureza da luz no quadro. Primeiro, a casa brilhando com todas as janelas acesas; depois, as pessoas, ao saírem de casa, parecem levar a luz consigo. Quando todos saem, a luz se apaga como se por um sopro de vento. Os personagens ainda têm lanternas e celulares, mas, à medida que os eventos — absolutamente místicos e assustadores — se desenrolam, a luz diminui cada vez mais. Quando a luz se apaga, você entende que é o clímax. Se já estava assustador antes, aqui você se prepara para algo realmente terrível.
Em meio à névoa geral de «Ichchi», Kostas Marsan espalhou pistas para os espectadores; nenhum detalhe é aleatório, e eles gradualmente se juntam em uma história sobre xamãs locais e espíritos, que foram a causa dos infortúnios daquela noite. E ainda surge um novo tipo de luz — o fogo.
A nova fonte de luz dá à história um novo rumo de desenvolvimento, mergulhando ainda mais nos acontecimentos, iluminando o passado. O fogo aqui é um símbolo de purificação e do ritual de sepultamento, uma das principais ferramentas para a realização de rituais. Na névoa pré-amanhecer, ele parece inquietante e estranho para os personagens: o fogo é algo perigoso, não é sobre luz e busca de caminho, é sobre selvageria e loucura.
Aqui, talvez, seja melhor parar, pois, a partir daqui, será difícil falar sobre o que o diretor realmente pretendia sem spoilers. E o jogo de «adivinhe o que era real no quadro» é extremamente interessante e oferece um amplo campo para interpretação, mas não deixa muitas perguntas sem resposta.
O filme mantém a tensão até os quadros finais
O filme de Kostas Marsan cativa desde os primeiros segundos e prende até o último quadro. O diretor não dá tempo para pensar em referências (embora se possa perceber a inspiração em «A Bruxa» de Robert Eggers), pois a história, que começa de forma bastante clichê, começa a se desenrolar em algo absolutamente imprevisível, ou previsível apenas para quem conhece bem o folclore e a mentalidade iacutianos.
Antes de assistir, não custa saber um pouco mais sobre os xamãs iacutianos e sua visão de mundo para apreciar plenamente o mundo mágico do filme e o quanto ele é permeado por essa lógica do sobrenatural. Mesmo após o filme, ao responder às perguntas dos jornalistas, o diretor fala sobre os eventos místicos de sua história como algo natural. O próprio Ichchi é uma força mística abstrata de um lugar/objeto, um espírito sem forma específica que, por alguma razão, é adquirido por um lugar ou objeto. É uma força com a qual se deve contar. Assim como o cinema iacutiano, que nos presenteou com mais um filme que não esqueceremos.
Trailer:
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