
No dia 25 de dezembro, o novo filme de animação «Soul» foi lançado no Disney+ — será que devemos esperar que ele mantenha os altos padrões do estúdio ou será que Pete Docter está a parasitar nas suas próprias ideias, que tentou realizar em «Divertida Mente» em 2015?
Em poucas palavras sobre o enredo
Falaremos sobre o enredo de forma muito breve, para evitar spoilers, pois — spoiler! — recomendamos que conheçam «Soul» por conta própria quando for lançado na Rússia em janeiro de 2021.
Joe Gardner adora jazz mais do que tudo no mundo e sonha em tornar-se membro de pleno direito de um quarteto popular — mas exatamente no momento em que surge uma oportunidade, devido a um acidente, a sua alma acaba a caminho do além. Não querendo aceitar esta situação, Joe encontra uma brecha na forma do caminho para a Terra para almas recém-nascidas, onde conhece a cética 22, que não consegue encontrar em si a «centelha» necessária para a viagem e posterior nascimento na Terra.
Dúvidas sobre os fofinhos antropomórficos
Após ver o trailer e alguns materiais adicionais, muitos tiveram receios bastante fundamentados de que o filme tentaria tornar-se um segundo «Divertida Mente» — pois aqui também Pete Docter recorre à representação no ecrã de conceitos abstratos: em «Divertida Mente» eram as emoções, em «Soul» é a vida após a morte. E… sim, é exatamente isso.
O segundo ato consiste inteiramente em fofos aglomerados azuis antropomórficos que existem e comunicam de forma adorável. Provavelmente, não haveria problema nisso se o primeiro ato — toda a premissa que se passava na Terra — não fosse tão bom e fresco. A imagem, impregnada pelo ritmo dos subúrbios de Nova Iorque e saturada de jazz, faz com que o espectador se identifique verdadeiramente com o protagonista, por quem queremos torcer. Mas não.
Durante todo o filme, não me largou a sensação de que a Pixar simplesmente tem medo de tentar fazer um filme inteiro sem os seus icónicos personagens fofinhos. No seu tempo, foi exatamente isso que cativou em «Os Incríveis», que tentou focar o drama nas relações humanas, sem animais engraçados ou criaturas imaginárias. Sem dúvida, há o argumento de que a animação tenta representar aquilo que não se consegue com atores reais e cinematografia, mas as fronteiras entre filmes de animação e filmes live-action estão cada vez mais difusas, especialmente graças à Marvel, onde há mais desenhado do que filmado à moda antiga.
«Soul» tinha um enorme potencial para se tornar uma história atmosférica, estilosa e muito pessoal sobre jazz e a busca de um sonho. Mas nunca saberemos como teria sido o resultado.
Problemas no segundo e terceiro atos
Então, infelizmente, a parte da história que dizia respeito à representação no ecrã de conceitos abstratos arrastou-se um pouco (exceto as personagens chamadas Jerry e Terry, que eram extremamente interessantes e engraçadas). No entanto, a certa altura, voltamos à Terra e…
Na trama, ocorre uma pequena reviravolta que, pessoalmente, me tirou um pouco da narrativa por várias razões que não posso mencionar sem spoilers. Esta reviravolta revelou-se forçada e extremamente cliché, e só a conseguiu salvar dos abismos do desespero a animação impressionante e a ligação emocional que, a essa altura, se formou entre as personagens e o espectador. Além disso, esta ligação é tão forte que, a certa altura, apercebemo-nos de que já não nos importamos com o enredo e simplesmente gostamos de observar a existência dos heróis no ecrã.
Sobre o clímax
É forte. O clímax é muito forte. Não vão chorar, não vão sofrer, não vão temer pelas personagens, pois sabem que, de uma forma ou de outra, tudo vai acabar bem (é a Pixar!). No entanto, a lição que este filme tenta ensinar acaba por ser bastante inesperada e muito realista, capaz de tocar as cordas do coração de qualquer pessoa com um sonho.
Além disso, destaco dois clímax diferentes, que se sucedem — um pessoal e um geral. E se o clímax geral dá um desfecho lógico a todas as linhas da história e nos leva ao final do filme, o pessoal está ligado precisamente a uma certa compreensão e iluminação de Joe e, para mim, foi ele que se tornou o apogeu de tudo o que o filme tentava dizer. É uma pena que tenha sido ligeiramente prejudicado pela longa ação que se seguiu.
O que é que «Viva – A Vida é uma Festa» tem a ver com isto?
Se a ligação entre «Soul» e «Divertida Mente» é óbvia, as associações e ecos com «Viva – A Vida é uma Festa» só se notam após alguma reflexão. De certa forma, estes filmes estão tematicamente muito ligados – o protagonista é apaixonado por música, os seus familiares não compreendem esse amor, a certa altura o herói acaba no mundo do além (leia-se – mundo dos mortos) e tenta encontrar uma saída para realizar o seu sonho.
E aqui surge um ponto extremamente interessante — os finais de ambos os filmes são, de certa forma, antagónicos entre si. Porque, sonho é sonho, mas a vida é uma coisa extremamente complexa e complicada, na qual nem todos têm a sorte de realizar esse sonho. O tema favorece o debate. Quanto a saber se o protagonista conseguiu ou não atingir o seu objetivo — podem descobrir muito em breve. Embora não seja o melhor filme da Pixar, recomendamos sinceramente a todos os fãs que o conheçam. Não se vão arrepender.
Comentários
0Ainda não há comentários.
Entre para participar da conversa.