
«Tenet» não é ruim, mas se lembrarmos que seu diretor foi Christopher Nolan...
Um ensaio pequeno e muito emocional, no qual uma frágil crítica, evitando ao máximo spoilers, tenta entender o que e como deu errado no novo filme «Tenet».
Introdução
Na literatura, existe um termo interessante, «morte do autor», nomeado em homenagem ao ensaio de Roland Barthes de 1967. O termo geralmente se refere à recusa em considerar a personalidade do autor, sua etnia, visões políticas ou contexto histórico ao ler e criticar um texto. Este termo, assim como o próprio ensaio, tem sido objeto de muito debate desde o seu surgimento. No cinema, a «morte do autor» é, na grande maioria dos casos, simplesmente impossível: a personalidade do diretor influencia demais a forma como percebemos a obra. É impossível assistir ao filme «Mãe!» sem considerar as alegorias bíblicas que Darren Aronofsky nele colocou. Não dá para ver os filmes de David Lynch ou Lars von Trier sem ter uma ideia de quem eles são e o que tentam dizer com seu trabalho.
Nos últimos anos, ter o nome de Christopher Nolan na cadeira de diretor era sinônimo de qualidade. Se você vai a um filme de Nolan, tem garantia de uma imagem bonita, som excelente e um enredo intrigante. Christopher se estabeleceu tão magistralmente que mesmo os pequenos sinais de alerta que já soavam em «Interestelar» não impediam os cinéfilos de serem loucos por seu trabalho.
No caso de «Tenet», o nome de Nolan influencia o filme com um sinal negativo.
Impressões Gerais
Devido à situação que se instalou no mundo, o lançamento de «Tenet» não era apenas esperado pelos cinéfilos – as pessoas rezavam para que os cinemas em suas cidades funcionassem durante sua exibição. Isso, combinado com o nome do diretor, a intrigante linha de enredo do trailer e um elenco interessante, influenciou fortemente o nível de expectativa em relação ao filme.
Meu conselho para vocês é: nunca esperem nada fanaticamente, a decepção pode ser muito dolorosa.
«Tenet» é ruim? Não. Não é um filme ruim. É interessante de assistir, os atores se esforçam, a imagem agrada aos olhos, a música está sempre no tom certo. «Tenet» é bom? Bem, essa é uma pergunta muito difícil, porque a autora desta crítica saiu do cinema com um nó na garganta e demorou muito para tentar definir seus sentimentos, que tentará detalhar um pouco mais adiante. Provavelmente, é bom. Mas é aí que reside seu principal problema – na palavra «provavelmente» e no tempo que levou para formular esse pensamento simples.
Primeiro, os Pontos Positivos
Os pontos positivos são muitos. Sem dúvida.
O trabalho de fotografia está acima de qualquer elogio. De alguma forma estranha, Hoyte van Hoytema e Nolan se encontraram e aprenderam a se entender com meias palavras. Não há a menor dúvida de que o filme foi filmado exatamente como Nolan queria.
Ludwig Göransson, embora tente muito se parecer com Hans Zimmer, transmite perfeitamente emoções e clima através da música, e alguns movimentos experimentais tornam este trabalho extremamente bem-sucedido.
A encenação das cenas de ação é mais que excelente. A incorporação de uma mecânica não convencional de manipulação do tempo nas lutas dá um toque incrível à dinâmica do que acontece na tela. Além disso, os truques são filmados com detalhes suficientes para que você entenda o que está acontecendo, sem perder a tensão da situação.
Dois trabalhos de atuação me surpreenderam particularmente, realizados no mais alto nível – Robert Pattinson e Kenneth Branagh. Pattinson oferece uma atuação muito sutil, com expressões faciais quase imperceptíveis que funcionam perfeitamente para seu personagem e revelam o relacionamento de seu herói com os outros. Robert prova mais uma vez que não é mais o menino vampiro baunilha e brilhante ao sol, mas um mestre em seu ofício. Criado no teatro shakespeariano, Kenneth Branagh conseguiu, de forma incrível, assumir um papel totalmente atípico para ele, que lhe cai perfeitamente bem.
Agora, os Pontos Negativos
Em primeiro lugar, a impressão é prejudicada pelo trabalho do montador, que expõe todos os defeitos do filme desde os primeiros minutos. O que aconteceu com Jennifer Lame, que trabalhou nos maravilhosos «O Legado Bourne» e «História de um Casamento», é totalmente incompreensível. Cenas bem encenadas são coladas umas nas outras de tal forma que o espectador não tem um minuto para respirar entre a ação e pelo menos refletir sobre o que acabou de ver. O filme corre pelos eventos de cabeça, sem parar, como se temesse que, sem brigas, tiros ou saltos a cada dez minutos, o frequentador do cinema perdesse o interesse pelo que está na tela. O resultado é um ritmo narrativo confuso que impede a imersão no filme.
A presença de um protagonista pálido e desinteressante também não contribui para a tensão emocional. Parece que disseram a Washington: «Não se esforce muito» – e ele não se esforçou. O protagonista do filme evoca associações com o arquétipo bastante popular de Mary Sue (neste caso, Marty Stu) – uma pessoa que não precisa aprender nada, pois já sabe e pode tudo; uma pessoa que tem sorte em cada passo e que encontrará a resposta certa em qualquer situação. Seus relacionamentos com os outros personagens são de papelão, você simplesmente não acredita neles – e, consequentemente, não torce por ele.
O Mais Importante
A seguir, uma opinião bastante subjetiva, baseada em anos de consumo de cinema e preferências pessoais. Só espero não ser a única. Mas sempre desprezei infinitamente as obras que estabelecem certas regras de existência no mundo e depois quebram essas mesmas regras em prol de uma imagem bonita. Sem spoilers, infelizmente, é muito difícil, mas, resumindo – Nolan ignora as regras que ele mesmo estabeleceu a cada passo. Nem tente encontrar a resposta para a pergunta «como isso funciona afinal?». Muitas inconsistências lógicas ou de causa e efeito, mesmo com toda a boa vontade, não podem ser atribuídas a «licenças artísticas». Ao mesmo tempo, a trama geral é bastante simples, o filme tenta focar exatamente no elemento fantástico. Consequentemente, a mecânica principal na qual tudo se baseia falha. E isso não deveria acontecer, não acham?
Conclusão
Depois de assistir a «Tenet», comecei a pensar seriamente: será que Nolan é tão bom assim? Nos últimos filmes, ele se preocupa muito mais com o componente visual do que em contar uma história minimamente coerente. Na tela, vê-se o orçamento grandioso e o esforço despendido, mas eles não funcionam como deveriam. Este filme expõe todos os pontos negativos de Nolan, que antes queríamos ignorar, e, assim, prejudica retroativamente a percepção de seus filmes anteriores.
Provavelmente, se «Tenet» tivesse sido dirigido por algum outro diretor iniciante, saudaríamos o filme com alegria e gritaríamos que o criador tem um enorme potencial. Mas Nolan já superou há muito tempo a fase de diretor iniciante. E o produto final continuou sendo – um produto. Bom, mas um produto.
E eu queria tanto amar este filme.
Você pode conferir o top 10 dos trabalhos anteriores de Christopher Nolan, que nossa equipe cuidadosamente organizou do pior ao melhor, aqui.
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