"Hokum" (2026, Irlanda, EAU, EUA)
"Hokum" do irlandês Damian McCarthy — mais um filme que assisti há cerca de um mês, mas o gostinho que ficou foi agradável. A história de um escritor que busca refúgio do trauma infantil nas letras e no álcool tem seu próprio charme, que, embora não seja novo para a cultura pop, funciona como um relógio. Eu também me rendi a esses encantos, por mais trágicos que sejam.
Filmado lindamente: paisagens florestais pitorescas, um hotel antigo autêntico com seus segredos e rangidos de assoalho, e o frio irlandês que se sente através da tela. Resultou em um folk-horror estético, mas não no estilo americano, sim no britânico, ou seja, com uma dose de carisma, mistério e distanciamento, apesar de toda a gravidade da tragédia revelada.
Nos EUA, os folk-horrores geralmente abusam da escuridão, caretas insanas dos personagens e tentam transformar mitos em fonte de terror. Lá, as lendas são o mal com um rosto específico, sempre sedento de vingança e que vai te despedaçar. Nessas histórias não há carisma ou mistério, mas muita crueldade e indiferença.
Nos folk-horrores britânicos [e, de forma mais ampla, europeus], na minha opinião, a mitologia é apresentada como um mal sem rosto, como uma ideia/medo que paira no ar e às vezes penetra na pele. Eles não se escondem em cantos escuros nem tentam atacar sorrateiramente; simplesmente existem. Se não forem tocados, também não tocam. Por isso, os filmes de terror britânico-europeus nesse subgênero parecem mais elegantes e não tão assustadores.
É exatamente assim que é "Hokum", que pela atmosfera me lembrou o britânico "The Unholy", bem como "The Medium", que foi dirigido pelo próprio McCarthy.
O que realmente me interessa é como ele consegue trabalhar tão bem com temas femininos. Se em "The Medium" ele tinha protagonistas femininas através das quais explorava tudo, em "Hokum" há uma escassez de personagens femininas. Mas é justamente a atitude em relação às mulheres que forma o enredo principal e o desfecho. No fundo, é um filme muito feminista, no qual Adam Scott é uma espécie de guia, cujos erros e sentimentos de culpa servem de aprendizado.
"Hokum" é bastante direto: não tenta criar duplo sentido, mas fala numa linguagem clara de decisões e suas consequências. No começo, parece que nos esperam metáforas complexas, mas depois percebemos que esse terror é mais um suspense, depois um drama, e só então um horror. Portanto, é esperado que haja apenas um jumpscare e mesmo assim forçado [só se você se assusta com máscaras estranhas]. Mas, na minha opinião, não há necessidade de artifícios genéricos tradicionais aqui. E o toque místico e o mistério estão exatamente na medida certa para esta história, para que soe interessante e sincera.
#resenhas
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