A lendária 'Runway' não é mais respeitada e está a um passo do desastre. O brilho 'eterno' está sendo substituído por tecnologias modernas e uma nova ética (a revista foi acusada de amizade com uma organização que usa trabalho escravo). Miranda Priestly (Meryl Streep), percebendo que a vida de sua criação está em jogo, une forças novamente com Andy Sachs (Anne Hathaway). A 'Cinderela' obstinada, há 20 anos, passou por todos os círculos do inferno do mundo da moda e saiu livre e independente, preferindo o jornalismo sério de fatos ao glamour. O retorno ao lar promete reabrir feridas passadas e reencontrar velhos amigos.
Casaco, mas não esse
É uma sequência e um remake ao mesmo tempo. A nova vida nada doce pega técnicas antigas e arcos de personagens do original e muda ligeiramente seu tom, ajustando-se à realidade atual: em vez da Paris dos sonhos, uma Milão igualmente onírica com seus desfiles famosos, glamour e jornalismo ficam para trás dos blogueiros e redes sociais na luta por um novo público (embora muitos pensem o contrário), o surgimento da inteligência artificial, a mudança na ética corporativa e a cultura do cancelamento.
Anne Hathaway como Andy, de certa forma, entra no mesmo rio duas vezes: ela novamente interpreta uma ingênua provinciana que sobe no elevador da carreira, de assistente a um cargo de destaque na redação. Miranda, interpretada por Meryl Streep, amoleceu um pouco com a nova ética e outras realidades, mas um tubarão, mesmo em um aquário apertado, é capaz de inspirar medo. Ela ainda é despótica e mantém Andy na coleira curta, mas depois afrouxa o aperto. Nigel, na pele de Stanley Tucci, continua sendo o mesmo mentor sábio e cínico, novamente conduzindo uma excursão pelo mundo tóxico da alta moda.
Em suma, tudo o que já vimos antes. Essa reciclagem é feita por uma razão simples e interesseira. Se funcionou naquela época, então vai colar agora, e os 'zoomers' vão encher os cofres de bom grado. Arriscar em tempos em que muitos filmes naufragam nas bilheterias por causa de ideias originais e ousadas? David Frankel, um artesão televisivo e criador do canônico 'Sex and the City', não quer nem pensar. Negócios, nada pessoal.
Mas essa simplificação tem consequências ainda mais graves. Além de percorrer uma trilha conhecida, ocorre uma 'netflixização' do cérebro. Ao longo do filme, várias vezes os personagens repetem verbalmente os movimentos da trama e eventos que acontecerão ou já aconteceram no filme. Caso contrário, o grato espectador, que não para de rolar o feed durante a exibição, não entenderá o que acabou de ver. Essa tendência na indústria está em toda parte agora, e muitos roteiristas são fortemente solicitados a mastigar todos os detalhes para melhor absorção da informação.
Devolvam meu 2006
O filme cumpre facilmente a principal tarefa para as realidades atuais: a tendência à nostalgia dos anos 2000. Um tempo de estabilidade, crescimento econômico e sonhos com um futuro brilhante é claramente perceptível no filme. Na tela, embora vivendo seus últimos dias, ainda está o brilho, que antes era um símbolo de prestígio e 'puttin' on the ritz', como cantava Fred Astaire. Os velhos heróis retornam em peso e executam, não sem prazer, partes familiares para alegria dos fãs: Streep é novamente uma pantera loira, Hathaway é charmosa e simplória, e Stanley Tucci é arrogante e o mesmo esnobe. As configurações básicas foram cumpridas com sucesso.
A sequência também reserva muitos detalhes familiares da primeira parte: o fatídico suéter azul-celeste de Andy desempenhará um papel interessante novamente, e as piadas sobre o casaco de Miranda ganharão um tom curioso. Na tela, como antes, toca o hino-manifesto de Madonna 'Vogue', onde pose e estilo são o principal atributo da nova vida. No entanto, nesta exposição de conquistas da época, não há a energia e a vibração frenética daquele tempo veloz e acelerado. Tudo lembra mais uma vitrine de loja de departamentos, onde estão expostas peças polidas pelos melhores artesãos, esperando seu destino atrás do vidro.
Não te reconheço de cara
Uma das principais desvantagens, especialmente no mercado russo, é a dublagem malfeita. É claro, mesmo sem minhas explicações, que um diálogo sério com o cinema só é possível no idioma original com legendas, mas mais uma vez escalar Evelina Khromchenko para dublar a imperiosa 'rainha da neve' Miranda é falta de tato e um meme prolongado
Na primeira parte, os localizadores decidiram que dar voz à severa e calma como uma jiboia chefe da publicação só poderia ser uma pessoa conhecida nos círculos da moda, e se enganaram redondamente. No original, a grande Meryl Streep nunca levanta a voz durante todo o filme e, com isso, inspira um medo genuíno nos subordinados. Sua frase fria às vezes custa a carreira de alguém.
Khromchenko negligencia essa construção do papel e frequentemente se entrega a gritos e agitação verbal desnecessária. Com isso, perde-se a magnitude de Miranda como predadora na selva urbana. Se for para isso, seria melhor convidar Alena Doletskaya, ainda mais porque ela tem relação direta com a revista Vogue, ou melhor, sua adaptação nacional. Teria sido mais verossímil e mais forte. O timbre dela é majestoso, e os meios-tons da voz inspiram respeito, mesmo sem ver a dona.
Não sou Marcello, sou outro
'O Diabo Veste Prada 2' é uma sequência típica das realidades modernas e um saudosista alô do passado. Sob uma nova capa colorida e cintilante, o conteúdo é o mesmo, mas não perde a forma com o passar dos anos, talvez porque o original também não pretendia os louros da 'Doce Vida' felliniana ou do 'Alta Costura' de Altman. Ele não queria destruir o culto à personalidade e ostracizar os poderosos da moda, mas apenas recontar, com um viés satírico, os velhos motivos do clássico conto de fadas urbano. Mas isso não é tão ruim assim, o importante é que o terno sirva.
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