Em ampla distribuição está 'Odisseia' de Christopher Nolan, na qual não há os habituais quebra-cabeças temporais nem o pathos homérico, mas sim um realismo severo que metodicamente destrói o mito do herói da Guerra de Troia.

Por vinte anos, Penélope (Anne Hathaway) e Telêmaco (Tom Holland) esperam pelo marido e pai desaparecido após a conquista de Troia — Odisseu (Matt Damon). Nos aposentos do rei, dia e noite, os 'pretendentes' montam guarda, liderados pelo astuto Antínoo (Robert Pattinson), ansiosos por poder e pelo trono, enquanto o próprio reino, sem rei, está em total desordem. E apenas as canções e lendas que exaltam Odisseu mantêm acesa a frágil esperança de seu retorno.

Se observarmos atentamente a filmografia de Christopher Nolan, torna-se evidente: quase toda a sua carreira consciente é uma variação do mesmo tema. No centro de sua narrativa está invariavelmente um homem solitário, exausto e desiludido, sobrecarregado pelo amargo fardo de erros passados. Seu único anseio é fugir desse fardo para um espaço seguro, que em Nolan geralmente simboliza o lar — abandonado outrora, mas preservado na memória intocado pelas tempestades da vida. Esse enredo arquetípico é visível em 'O Cavaleiro das Trevas', 'A Origem', 'Amnésia', 'Interestelar' e 'Oppenheimer' — com o qual, aliás, 'Odisseia' revela uma semelhança particularmente marcante na biografia de um homem que se torna uma silhueta escura contra o pano de fundo de seus próprios feitos.

Há quem diga que foi com 'Odisseia' que Nolan finalmente colocou um ponto final nesse ciclo interminável de viagens para casa. Agora, seu herói foge, não tanto 'para onde', mas 'de onde' — e, segundo rumores, o diretor está pronto para se voltar a uma história completamente diferente. No entanto, essas previsões devem ser recebidas com cautela: quando se dedica a vida inteira ao desenvolvimento de um único motivo, é bastante difícil mudar para algo diametralmente oposto.

Cena do filme 'Odisseia'
Cena do filme 'Odisseia'

A direção em 'Odisseia' é deliberadamente esquemática, o que, aliás, apenas confirma a fidelidade à assinatura do autor. E se na primeira metade do filme ele, por hábito, tenta confundir o espectador, misturando camadas temporais, depois rapidamente encontra um caminho direto e não se desvia dele até o final. E aqui está a principal revelação: 'Odisseia' acaba sendo o filme mais direto do diretor, que, como se estivesse cansado de si mesmo, renuncia à maioria de seus truques de assinatura. No entanto, ele não traiu sua principal ambição: Nolan ainda busca o máximo de verossimilhança. Portanto, aqueles que esperavam da adaptação do épico homérico pompa, solenidade e dourado açucarado terão que se decepcionar — não há nenhum luxo antigo aqui.

Nolan remove metodicamente tudo o que poderia desviar a atenção do principal — dos olhos constantemente úmidos de Matt Damon, transformado por ele em um velho decrépito, e da história que ele incorpora. Além disso, ele vai mais longe, banindo completamente os deuses gregos da tela, ilustrando claramente a ideia-chave de seu filme: os celestiais se afastaram dos homens da Idade do Bronze, seus preceitos foram pisoteados e esquecidos, e a partir de agora a humanidade está condenada a vagar eternamente entre mitos e realidade. E esses dois elementos, como se sabe, divergem radicalmente.

Cena do filme 'Odisseia'
Cena do filme 'Odisseia'

À imagem quase documental, Nolan adiciona algumas cenas de terror eficazes — com os episódios do ciclope Polifemo e de Circe, ele se igualou a alguns mestres do gênero (por exemplo, Robert Eggers ou S. Craig Zahler). Aqui também se pode incluir a cena hiper-realista dentro do cavalo de madeira, quando as pessoas, aguardando o transporte, simplesmente sufocavam em seus próprios miasmas e se afogavam em água suja. Mas quando se trata de cenas de ação, Nolan dá um tropeço perceptível. As vigílias marítimas nos drakkars ainda são toleráveis, mas a batalha final com os pretendentes em Ítaca lembra menos um desfecho épico e mais uma briga confusa, como no recente 'Mortal Kombat': escuridão, aperto, não dá para distinguir nada direito. Isso causa um pouco de frustração, mas, para ser justo, deve-se dizer que a coreografia das cenas de luta nunca foi o ponto forte de Nolan.

E agora sobre Damon. Diante de nós não está mais aquele astuto rei de Ítaca, que tão habilmente enganou os bravos troianos com sua oferenda. Este é um marido abatido e triste, exausto por guerras, longas campanhas, pela dor permanente dos que o cercam, que se tornou a causa de muitos infortúnios dos povos conquistados, cuja fama corre muito à sua frente. O filme, ao longo de duas horas e meia, literalmente esmaga o halo heroico que se enraizou na cultura de massa. Nolan está mais interessado em como um homem se transforma em sua própria lenda, gradualmente sufocando nessa imagem. E no final, ele é forçado a aceitar os fatos sobre si mesmo como verdade, porque simplesmente não consegue refutar o que foi dito. De qualquer forma, não acreditarão ou o considerarão um impostor. E talvez tenham razão.

Este é mais um acorde triste na visão moderna de Odisseu, que Damon incorpora brilhantemente na tela. Pode-se dizer inequivocamente: Nolan teve sorte com a estrela principal. Mas, conhecendo o profissionalismo do autor, não se trata nem de sorte, mas, como sempre, de cálculo preciso. Aliás, o restante do elenco também não pode ser considerado um sucesso questionável. Até o querido público 'Homem-Aranha', Tom Holland, ficou tão imbuído da solenidade do momento que deixou de irradiar simpatia, travessura e ingenuidade e se transformou completamente no infeliz filho de um pai desaparecido.

Cena do filme 'Odisseia'
Cena do filme 'Odisseia'

'Odisseia' é, sem dúvida, um evento no mundo do cinema contemporâneo, candidatando-se sem grandes obstáculos ao filme do ano. A aspereza da película e a não conformidade com a maioria dos capítulos do poema original de Homero não conseguem ofuscar a brilhante direção e sua sutil compreensão da conjuntura. É exatamente isso que se deve ir ver ao cinema, antes que ele se transforme definitivamente em jogos plásticos de super-heróis no pano verde dos estúdios. A força de Nolan está no cálculo. Nada de supérfluo, tudo a propósito. Cada detalhe trabalha para a imagem, para o clima, para a saudade de casa que ele molda de filme em filme.