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«Sob o Salgado» — novo detetive britânico com Kelly Reilly. Noir galês sobre uma ex-detetive, o corpo de uma criança no pântano salgado e uma tempestade que varrerá tudo. Atmosfera nota dez. Final decepcionante. Detalhes na crítica.

Há séries que se assiste pela trama. Há aquelas que se sustentam pela atuação. E às vezes encontramos algo onde os protagonistas são o cenário e sua atmosfera — e é exatamente assim «Sob o Salgado» (Under Salt Marsh), projeto de seis episódios do Sky Atlantic com Kelly Reilly no papel principal. A série prende como um pântano — devagar, quase imperceptivelmente, e no terceiro episódio já não se quer sair, embora o assunto seja infanticídio.

A fictícia cidade galesa de Morfa Halen fica à beira do mapa e à beira do bom senso: de um lado, montanhas; do outro, o oceano, que há muito observa para engolir tudo. A ex-detetive Jackie Ellis (Reilly) se estabeleceu aqui como professora depois que, há três anos, um caso não resolvido do desaparecimento de sua própria sobrinha destruiu sua carreira. Mas a paz não é seu forte: certa noite, ela encontra o corpo de seu aluno de oito anos no pântano salgado, e a cidade, que já mal se segurava, finalmente racha.

O ex-parceiro de Jackie, o detetive Eric Bull (Rafe Spall), retorna a Morfa Halen para liderar a investigação em uma comunidade que ele já decepcionou uma vez. Tudo isso ao som de uma tempestade do século que se aproxima, prometendo levar embora tanto as evidências quanto o próprio povoado e seus habitantes.

Sob o Salgado série
Cena da série «Sob o Salgado»

Claire Oakley — diretora e criadora da série, que antes ganhou reconhecimento em seu país pelo drama intimista «Manicure» — trouxe para a televisão uma visão estética específica. Morfa Halen é filmada de forma que se quer ao mesmo tempo mudar para lá e manter distância: reflexos prateados da água, céu baixo onde as nuvens parecem mais pesadas que a própria terra, uma infinita paleta de cinzas (até para mim, que sou de São Petersburgo, foi demais).

Os autores também deram atenção especial ao som — o rugido do mar está presente em quase todas as cenas, criando a sensação de que a natureza é uma participante plena da história. É uma linguagem visual onde a paisagem rima com o estado psicológico dos personagens — um recurso não novo, mas aqui executado com rara consistência. Não é «True Detective», claro, mas algo parecido — só que com sotaque britânico e muito menos monólogos filosóficos.

«Sob o Salgado» é uma série na melhor tradição do noir policial britânico: paciente, metódica e sem pressa para explicar o que está acontecendo. As pistas se acumulam lentamente — botas de borracha, uma pegada na lama, uma mistura de água doce e salgada nos pulmões do menino. Os suspeitos são dispostos com uma meticulosidade quase agatha-christiana: aqui temos um conspiracionista local, um apicultor misterioso ligado às duas crianças mortas. A investigação paralela de dois casos — o atual e o de três anos atrás — cria aquela densidade narrativa que faz com que não se queira desviar a atenção para as redes sociais. A série claramente sabe o que faz — pelo menos nos primeiros episódios.

Sob o Salgado Kelly Reilly
Cena da série «Sob o Salgado»

Já o final é assunto à parte. A criadora Oakley admitiu em entrevistas que três episódios foram escritos sem um desfecho claro, e o assassino foi definido durante o processo: a equipe voltou a episódios prontos, ajustando a lógica retroativamente. Isso se sente. O acorde final é um tanto apressado, como se a tempestade finalmente tivesse alcançado não só a cidade, mas também os roteiristas. A revelação é formalmente convincente, mas emocionalmente um pouco aquém: no momento em que deveria impactar, impacta apenas pela metade. E o criminoso acaba sendo alguém que praticamente não participa da narrativa, o que desvaloriza um pouco a história.

O que não gera críticas é Kelly Reilly. Depois de anos em «Yellowstone», onde sua personagem se tornou uma das mais comentadas da TV americana, a atriz traz para o País de Gales qualidades bem diferentes — uma tensão silenciosa e uma verdadeira tempestade interior. Jackie Ellis é uma mulher que se segura não por ser forte, mas porque ainda não encontrou outra saída, embora tenha um amante e esteja grávida. Ela simplesmente não pode seguir em frente sem fechar aquela porta que a forçou a mudar radicalmente seu modo de vida.

Sob o Salgado 2026
Cena da série «Sob o Salgado»

Rafe Spall («Black Mirror», «Não na Primeira Tentativa») forma um par digno com ela — seu Bull irrita pela credulidade, mas ao mesmo tempo atrai paradoxalmente pelo pensamento racional em contraste com a emotividade de Jackie. E é ótimo que os criadores tenham privado os personagens da possibilidade de um romance, o que tornaria a história mais «barata». Jonathan Pryce («Game of Thrones», «Slow Horses») em um papel episódico, mas significativo, como Solomon Bevan, adiciona ao projeto um grau de antiquado britânico que as cenas com ele exigem.

«Sob o Salgado» é daquelas séries que se deve assistir pelas emoções que se sente durante o processo, e não apenas pelo desfecho. Se você aprecia um noir lento e atmosférico que penetra até os ossos — bem-vindo a Morfa Halen. Só não esqueça as botas de borracha: lá é molhado.