
Resenha de 'A Beleza' de Ryan Murphy (FX, 2026). Um vírus que transforma pessoas em belos — é uma sátira afiada com Evan Peters e Ashton Kutcher. Leia enquanto ainda pode.
[Nota da redação: este material foi encontrado na área de trabalho do nosso autor, inacabado. Publicamos como está. O destino do autor é desconhecido.]
Dia um. 22:47
Então, mais um Ryan Murphy. De novo. O homem que produz mais conteúdo em um ano do que alguns streamings, pegou os quadrinhos de um tal Jeremy Haun — e aí está «A Beleza» no FX/Hulu. A trama? Um vírus transmitido sexualmente transforma pessoas comuns em pessoas bonitas, e depois de 855 dias elas explodem. O FBI investiga. Soa como um pitch inventado às 3 da manhã no terceiro copo de uísque.
Liguei por educação. Bem, e porque no elenco está Bella Hadid. Como atriz. Pela primeira vez na vida.

Os primeiros dez minutos — uma supermodelo em Paris derruba paredes no desfile da Balenciaga, corre pela cidade com força sobre-humana e algo irremediavelmente fashion nos olhos, depois explode no Sena. Hadid se sai bem. Isso já é uma surpresa.
Ok, continuo assistindo.
Dia dois. 00:15
Sabe o que irrita nesta série? O fato de que ela é sobre beleza — e parece bonita. Parece um truque desleal. A fotografia aqui claramente custou o preço de um carro europeu pequeno: corpos se transformam, rostos se reescrevem sobre traços antigos, e tudo é filmado com um cuidado patologicamente glamouroso. Body horror na estética da Vogue — por si só uma ideia espirituosa, e Murphy a explora habilmente.

O elenco, à parte. Evan Peters como o agente Cooper (o sobrenome não é coincidência?!) — é o típico Evan Peters em um projeto típico de Murphy, sem revelações. Já Anthony Ramos como o Assassino — é uma história completamente diferente: seu personagem, um velho de 65 anos no corpo de um trintão, é interpretado com uma dignidade inesperada. Rebecca Hall existe em cena com tanta calma profissional que todos ao seu lado ficam nervosos.
E Ashton Kutcher como o vilão bilionário de aparência perfeita — é uma escolha de elenco genial, considerando seu histórico de galã notório.
Três episódios passaram mais rápido do que consegui encher a segunda caneca de chá. Um mau sinal. Começou a fazer calor — abri a janela.
Dia três. 23:30
Começo a entender do que se trata realmente. «A Beleza» é uma sátira. Às vezes afiada, às vezes desconfortável: sobre como os padrões de beleza são literalmente mortais, como gigantes farmacêuticos vendem veneno em embalagens bonitas, como os ricos já compraram outra «realidade» para si. Byron Forst é Elon Musk mais Mark Zuckerberg, se eles não tivessem parado em foguetes e redes sociais, mas ido além — até a genética humana e o monopólio da atratividade. A metáfora é explosiva, assim como os personagens daqui.

Para ser justo, a série é muito irregular. As linhas de Jeremy e do Assassino — sobre dois solitários quebrados que descobrem algo parecido com uma família um no outro — funcionam muito bem. Mas, por exemplo, as reuniões de produção de Byron e o melodrama familiar com o filho viciado em drogas claramente arrastam. Murphy novamente não sabe escolher: ele quer contar tudo de uma vez, então em um episódio cabem um desastre em Paris, uma execução na Croácia e um flashback sobre a origem do vírus.
Por outro lado, o episódio sobre a redação da Condé Nast — quando uma funcionária infectada da Vogue provoca um apocalipse bem no open space da alta moda — é o melhor que Murphy fez nos últimos anos. Engraçado e assustador ao mesmo tempo. Revisei essa cena duas vezes. Peguei uma segunda garrafa de água. Estranho, normalmente não bebo tanto.
Dia quatro. Tarde
Escutem, vocês notaram que «A Beleza» é na verdade sobre todos nós? O vírus aqui é apenas o próximo passo lógico depois dos filtros do Instagram, retoques e feeds onde qualquer rosto pode ser melhorado com um swipe, e com a disseminação da IA, inventar uma nova pessoa perfeita. Byron Forst não é um vilão — é um empreendedor que levou ao fim aquilo que todos pensamos em silêncio. E é por isso que ele é tão assustador.

Ok, um pequeno desvio do assunto.
O vizinho do andar — nos acenávamos uns cinco anos, no máximo — hoje parou e perguntou se eu mudei o corte de cabelo. Eu não mudei o corte de cabelo. Depois uma colega escreveu no chat geral algo como «você está com boa aparência hoje» — do nada, sem motivo. Atribuí à boa iluminação no escritório.
Em casa, olhei no espelho por mais tempo que o normal.
Não sei. Algo mudou.
Provavelmente, finalmente dormi bem. Embora ontem quase não tenha dormido — estava calor.
Continuo assistindo. Mais cinco episódios.
Dia cinco. 01:20
a propósito, depois termino a resenha direito. primeiro preciso saber o que vai acontecer com a jordan. série muito importante. muito subestimada. murphy sabe trabalhar com ritmo, só que nem todo mundo percebe. kutcher no geral deu o melhor papel da década, falo sério, veja como ele segura o quadro — tem um carisma, um tal
algo estranho nas pontas dos dedos. provavelmente digitei muito.
agora só o final e pronto. já escrevo a conclusão.
a conclusão é: é bonito. tudo tão
bonito. tudo tão bo
[ARQUIVO INTERROMPIDO. DATA DA ÚLTIMA MODIFICAÇÃO — 03:47]
Nota da redação: material encontrado aberto no computador de trabalho do autor. O autor não entrou em contato. Na área de trabalho — vestígios de origem desconhecida, uma caneca vazia de chá e o 11º episódio de «A Beleza» no minuto 47:23 na bandeja. Se você viu nosso autor — por favor, escreva para a redação.
«A Beleza» — no FX e Hulu. 11 episódios. Não há quem dê a nota.
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