
Se parece que 'Cadela Espacial Lida' é uma história sobre a conquista do espaço, marcando o 65º aniversário do primeiro voo espacial, não se deixe enganar. É antes uma reflexão sobre a escolha moral e o significado da família, temperada com efeitos e...
Início dos anos 2000. Igor, de 13 anos, recebe de seu pai cosmonauta um presente, a cadela Lida, que misteriosamente voltou do espaço. Em casa, sua mãe (Yulia Peresild) espera um filho de outro homem, tio Styopa (Yevgeny Stychkin), o padrasto não se parece em nada com o personagem do livro de Sergei Mikhalkov e planeja colocar o enteado em um colégio militar. Naquela noite, quando o menino foge de casa, Lida, graças aos superpoderes adquiridos no espaço, "extrai" dele sua versão adulta. Igor, de 40 anos (Yevgeny Tkachuk), avisa: em três dias, seu pai morrerá no lançamento do foguete. Todo o futuro do menino irá por água abaixo. Para evitar isso, é preciso atravessar o país e salvar o pai.
Em seguida, uma viagem a Baikonur que se transforma em algo completamente diferente. Porque cada vez que Igor sofre um choque, seu mentor do futuro muda.
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O primeiro choque de 'Cadela Espacial Lida' é a trilha sonora. O pequeno Igor conhece as músicas favoritas de Detsl, e antes do diálogo com o padrasto, ouve a significativa 'Eu Amo as Pessoas' de 'Delfin'. A música adiciona intertextualidade e mergulha com precisão na época. Além disso, cada um dos futuros Igors tem sua própria melodia.
O primeiro é enorme, careca, com falta de ar, ganha a vida nos trens elétricos cantando 'Pulo do Penhasco' de 'Korol i Shut'. O segundo, um criminoso com uma tatuagem da mãe e da Lida no peito (a cadela é amada por absolutamente todos os personagens do filme) aparece na tela ao som da lendária composição de Mikhail Krug, e o terceiro, um coach de negócios com facetas de porcelana, é acompanhado pela faixa de Saluki.
Tkachuk faz algo titânico neste filme. Ele muda a plástica corporal, a voz, a idade, o peso (graças ao maquiador de efeitos especiais) e a essência da pessoa em duas horas de tela. Um Igor se parece com Charlie de 'A Baleia' de Aronofsky, outro se parece com Barney Stinson de 'How I Met Your Mother'. Cada uma das versões se torna uma resposta à pergunta: 'como eu me tornarei se fizer esta ou aquela escolha'.
Confronto conceitual: eu não serei assim

O filme tem uma arquitetura clara. Cada nova versão de Igor é uma rejeição das 'versões de si mesmo' anteriores. Este é um elemento educativo do filme, no qual o menino renuncia ao futuro, decidindo dar um novo passo.
Cada versão de Igor no filme não é sua escolha livre, mas sim o que as circunstâncias, a família e a sociedade fizeram dele. Jacques Lacan, o filósofo francês, tem o 'Grande Outro'. Não é uma pessoa específica, mas uma estrutura usada na teoria do cinema: linguagem, leis, normas culturais, vozes dos pais que começamos a aceitar como nossos próprios desejos. O Outro pode ser entendido como uma instância invisível que nos diz quem é 'certo' ser, o que desejar, o que considerar sucesso e o que considerar fracasso. As 'novas' versões nascem dos medos que o menino já experimenta diante desse juiz invisível. Assim, um dos Igors mais velhos, um coach de negócios com facetas de porcelana e tênis, se encaixou tão bem na ordem simbólica (carreira, dinheiro, 'sucesso de sucesso') que perdeu até a memória de que um dia quis algo diferente.
Cachorro às vezes morde

Sobre a heroína principal, cujo nome está no título do filme, não se sabe muito. No filme, ela é definida como um erro de sobrevivente, uma 'cadela espacial', única em seu tipo. Ninguém sabe exatamente como ela adquiriu o superpoder. Ela cria vórtices temporais e os elimina. A lógica das ações da cadela é desconhecida, mas para os criadores do filme, isso é suficiente. Afinal, ela é mais uma ajudante mágica do que um personagem completo do filme.
O que fazer se nenhuma das versões agrada?

A narrativa cai, pois no último terço do filme é necessário manter um alto nível de catarse. Os roteiristas brincam com uma série de repetições, novas vidas que levam a um cataclismo, mas o conceito coeso se desfaz em esboços. No entanto, oferece peso existencial suficiente para não sobrecarregar o espectador. O que Igor se tornou? A pergunta é retórica.
Há uma referência a 'O Ódio' de Kassovitz, quando o jovem Igor faz um monólogo olhando para seu próprio reflexo no espelho. A cena de perseguição na estepe cazaque e a imagem dos bandidos locais lembram suspeitamente 'Mad Max'. Uma das descobertas do roteiro do filme é o retorno de Sergei Bezrukov ao papel de Sasha Bely de 'Brigada', com seu olhar familiar e jaqueta de couro. Claro, não resta nenhum vestígio de seu passado criminoso, mas a imagem é instantaneamente reconhecida pelo espectador.

Os autores descrevem seu filme como uma viagem ao 'mundo do que não se realizou'. Mas o final acaba sendo muito mais prosaico, resumindo-se a uma moral simples, como o espectador de massa deseja: todos os nossos objetivos, mesmo os não realizados, mudam a realidade. E no espelho vemos não apenas quem nos tornamos, mas também quem poderíamos ter sido.
'Cadela Espacial Lida' é um caso raro de filme que não é sobre o que parece. O espaço aqui é mais uma ilustração de um mundo além da nossa compreensão. Pode tirar uma vida ou dar uma nova habilidade. A trama repete as mesmas verdades: a família acima de tudo. Igor oscila entre versões de si mesmo, mas em cada uma delas, mesmo na mais fracassada, continua sendo um filho que atravessa meio país para salvar seu pai a tempo. Por trás da abundância de efeitos especiais, camadas de maquiagem e dobras de figurinos, esconde-se algo que prende a atenção do espectador muito mais. É a interação entre o menino e a cadela. Simples, confiante, mas é isso que mantém a história à tona. Igor e Lida permanecem a única constante, o triunfo da humanidade.
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