Hoje dei uma olhada nas estatísticas do Cursor, que nos últimos seis meses passou de um brinquedo "só por curiosidade" para uma ferramenta de trabalho diária. Mais do que isso — tornou-se um parceiro completo, com quem converso, discuto sobre sintaxe e até cedo em debates sobre como estruturar melhor o código.

120 mil linhas. Foi o que o Cursor gerou nos últimos 30 dias. E isso soa como uma sentença para quem ainda acredita no trabalho manual. Eu ainda corrijo o código pessoalmente — mas isso já não é trabalho, é mais um ritual que me lembra que ainda sou humano. O tempo principal vai para formular pensamentos de forma que não só eu, mas também essa inteligência artificial do outro lado da tela, entenda.

Com o surgimento de uma ferramenta que não apenas escreve código por você, mas o faz com qualidade, passei a produzir muito mais. Chegou ao ponto de que qualquer ideia de projeto pessoal que antes eu descartaria — porque não queria gastar nem algumas noites nisso — agora se realiza num piscar de olhos.

Por exemplo, no domingo passado tive a ideia de que seria bom monitorar novos seguidores no blog. Dito e feito. Ou melhor, dito por mim, feito pelo Cursor. Tudo levou uma hora, no máximo.

E então pensei que seria legal manter um histórico de sessões de narguilé em casa. Sou, sabe, um grande fã, e tenho em casa uma estante de narguilé digna de um lounge de médio porte. Antes, eu teria usado o Google Sheets. Agora, uma hora depois, tenho um bot que rastreia tudo e coleta estatísticas.

Estamos definitivamente num ponto em que a codificação deixa de ser limitada apenas pelas capacidades humanas. O que antes levava meses, agora pode ser feito em semanas. Ou até dias. Horas? Minutos? Quem sabe o que será daqui a seis meses.

Mas eis o paradoxo: em vez de liberar tempo, essas ferramentas me fazem trabalhar ainda mais intensamente. Agora não apenas consigo fazer mais, eu *devo* fazer mais. O FOMO, que antes era um sussurro baixo, agora ruge como uma sirene. Parece que todos ao redor estão realizando suas ideias, construindo projetos, lançando produtos — e se eu não girar na mesma velocidade, ficarei para trás. Não apenas atrasado, mas me tornarei uma relíquia, alguém que não conseguiu entrar a tempo nesse trem.

E eu giro. Giro como um hamster na roda, só que essa roda agora não é mecânica, é digital, e gira cada vez mais rápido. Há dois desfechos possíveis: ou eu queimo nesse fogo, ou saio da roda com tanta velocidade que acabo na estratosfera. A terceira opção — parar e refletir se realmente quero viver nesse ritmo — parece cada vez mais distante.

Afinal, já quase me esqueci do que é "parar".