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Em 15 de junho, a Netflix lançou uma nova temporada da famosa antologia criada por Charlie Brooker. 'Black Mirror' começou como um conjunto de histórias de ficção científica sobre tecnologia e pessoas, mas em 2023 isso foi completamente esquecido.

A primeira temporada da série 'Black Mirror' estreou em 2011 (há 12 anos!) no Channel 4 e conquistou o público e a crítica com seus episódios ousados e socialmente relevantes. O criador do show, Charlie Brooker, nomeou a antologia em homenagem às telas pretas de smartphones, monitores e televisores, nas quais os espectadores veem seu próprio reflexo todos os dias. A tecnologia penetrou profundamente na vida das pessoas, então a série tentou mostrar a que resultados a obsessão da humanidade por gadgets pode levar.

Em 2015, após o lançamento de duas temporadas e um especial de Natal, a Netflix adquiriu os direitos da antologia por 40 milhões de dólares. O streaming esperava que a marca já consagrada se tornasse uma das joias brilhantes de sua mediateca, mas ou Charlie Brooker foi perdendo o fôlego aos poucos, ou o serviço 'tudum' estragou tudo, mas na 5ª temporada, 'Black Mirror' perdeu bastante qualidade.

Ao longo de 12 anos, várias estrelas como Bryce Dallas Howard ou Jesse Plemons apareceram nos episódios da antologia, e a sexta temporada não foi exceção. Só que, nos cinco novos episódios de 'Black Mirror', reconhecemos a série em apenas um deles. Vamos falar sobre cada um separadamente.

Você caiu na TV — 'Joan Is Awful' (Episódio 1)

Qual é a história?: Joan (Annie Murphy) tem tudo que muitos só sonham: um bom emprego, um namorado atencioso, Krish (Avi Nash), e uma casa grande e aconchegante. Mas, na consulta com a psicóloga, a garota reclama que no trabalho está entre dois fogos, a chefia e os funcionários comuns, e que no relacionamento com Krish falta a loucura que sentia com o ex, Mac (Rob Delaney). E, no geral, ela não se sente a protagonista da própria vida.

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Annie Murphy em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Dito e feito! Na mesma noite, a plataforma Streamberry lança uma série chamada 'Joan Is Awful' sobre a vida da própria Joan, com Salma Hayek no papel principal. Além de Hayek, o show conta com Himesh Patel (Krish), Ben Barnes (Mac) e Wunmi Mosaku (advogada de Joan). A trama repete todo o dia anterior, colocando a protagonista sob uma luz nada favorável. A novidade atrai uma multidão para as telas, e a vida da garota sofre um desastre catastrófico. Agora ela com certeza se sentirá a protagonista.

Aquele episódio único onde o verdadeiro 'Black Mirror' está presente é o primeiro da temporada. Aqui, Charlie Brooker critica os streamings sem alma, incluindo a própria Netflix, já que a Streamberry tem um logotipo vermelho semelhante em forma da letra 'S' e o característico som 'tudum' na abertura. É verdade que os episódios são lançados um por dia, e não todos de uma vez, mas não se pode copiar exatamente a si mesmo. A história se baseia no fato de que poucos leem os enormes acordos de usuário com várias páginas. A maioria apenas rola até o final e clica em 'Aceitar' ou 'Concordo', e o serviço pode escrever o que quiser lá.

Essencialmente, a Netflix lançou sua própria propaganda negativa, o que parece bem engraçado. O episódio mostra para onde pode ir o desenvolvimento de redes neurais, deepfakes e tecnologias CGI na indústria cinematográfica. É assustador, mas é por isso que amamos 'Black Mirror', certo? Embora o streaming já tenha alguns projetos que parecem ter sido concebidos em um tubo de ensaio e feitos por inteligência artificial com a adição de nomes famosos (veja 'Alerta Vermelho' e ), então a ideia certamente não é nova.

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Ben Barnes e Salma Hayek em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Claro, a Netflix não seria a Netflix se não tivesse incluído a pauta no projeto. No entanto, há momentos em que não está claro se o streaming está tentando fazer autossátira ou se está acumulando uma pauta ainda maior sobre a sua própria. Se for a primeira opção, não deu muito certo; se for a segunda, é pura idiotice. Mas, apesar de todas as falhas, o episódio ficou muito bom. Primeiro, é o velho e bom 'Black Mirror' e, segundo, a série é realmente interessante e oferece alguns pensamentos sobre o tema da tecnoparanoia.

P.S. O primeiro episódio tem cenas durante e após os créditos, então não se apresse em desligar.

Em águas tranquilas — 'Loch Henry' (Episódio 2)

Qual é a história?: Os estudantes de cinema Davis (Samuel Blenkin) e Pia (Myha'la Herrold) estão viajando para filmar um documentário sobre um homem que protege alguns ovos e, no caminho, param em uma aldeia remota escocesa onde Davis cresceu. Lá, o rapaz apresenta Pia à sua mãe (Monica Dolan) e ao amigo de infância Stuart (Daniel Portman).

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Myha'la Herrold e Samuel Blenkin em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

A aldeia parece deserta, o que surpreende Pia, pois há tanta beleza ao redor. Pela lógica, não deveria faltar turistas, mas tudo fica claro quando Stuart e Davis contam à garota uma história terrível que aconteceu na região. Após a revelação de um assassinato brutal, as pessoas pararam de vir. A estudante fica tão cativada pela história que convence o rapaz a mudar o tema do filme e fazer um documentário sobre esse mesmo assassino psicopata. Esse trabalho deve ajudar esses lugares maravilhosos a se tornarem populares novamente e, além disso, trazer fama aos estudantes. Só que eles nem imaginam como as filmagens mudarão suas vidas.

Gostaria desde já de esclarecer que Loch Henry não é o apelido de algum personagem oprimido, mas o nome da localidade onde se passa o episódio. É claro que há 'lochs' (lagos) no episódio, mas nenhum deles se chama Henry.

O segundo episódio ficou bastante interessante e assustador, mas a tecnologia não desempenha nenhum papel nisso. 'Loch Henry' é concebido como um thriller de detetive que apenas zomba um pouco das mesmas plataformas online (o documentário dos estudantes é lançado pelo já conhecido Streamberry, onde, aliás, também existem outros projetos lançados sob a marca 'Black Mirror', como o filme interativo 'Bandersnatch').

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John Hannah em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

O episódio levanta a questão eterna que, mais cedo ou mais tarde, todo diretor enfrenta: 'Que tipo de cinema quero e vou fazer? Algo mainstream e comercialmente bem-sucedido ou algo pessoal e autoral, que me interessa em primeiro lugar?' Sortudos são aqueles que conseguem encontrar um equilíbrio em seus projetos, mas muitas vezes é preciso escolher algo, e essa escolha nem sempre é a seu favor.

'Loch Henry' é, sem dúvida, um ótimo thriller, mas dificilmente é o que o espectador espera ver quando liga o famoso 'Black Mirror'. Embora, é claro, a trama interessante e o papel cômico de Daniel Portman, que rouba toda a atenção assim que aparece em cena, sejam muito cativantes. Ainda assim, aqui os criadores se afastaram do conceito clássico em direção à exploração dos sentimentos e relacionamentos humanos. Ficou bom, mas é cedo para comemorar.

Ao extremo — 'Beyond the Sea' (Episódio 3)

Qual é a história?: Numa década de 1960 alternativa, dois astronautas, Cliff (Aaron Paul) e David (Josh Hartnett), exploram o espaço sideral em uma missão de seis anos. No entanto, em seu tempo livre, eles têm a oportunidade de retornar à Terra transferindo suas consciências para corpos clones que estão em casa.

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Audèn Thornton e Josh Hartnett em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Dois anos de odisseia já se passaram e nada pressagia problemas, quando, de repente, David enfrenta uma tragédia terrível. Um grupo de hippies sectários (uma clara referência a Charles Manson) invade a casa do astronauta e mata sua esposa e filhos, destruindo simultaneamente o RobôDavid. Consumido pela dor, o homem começa a enlouquecer lentamente a bordo da nave espacial, então Cliff e sua esposa Lana (Kate Mara) decidem que não faria mal a David visitar a Terra novamente. No final, os companheiros passam a dividir um único avatar entre dois, o que claramente não levará a nada de bom.

'Black Mirror' sempre conseguiu surpreender, por isso não é incomum que episódios conquistassem os espectadores com suas tramas. 'Beyond the Sea' talvez também não possa ser classificado como um episódio típico de tecnoparanoia, mas, no contexto da sexta temporada, é provavelmente a melhor história. Uma retrofuturista trágica que pode ser facilmente vista como um filme separado (tem duração de 80 minutos), mesmo por quem não conhece a antologia.

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Kate Mara e Aaron Paul em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

O trabalho de atuação de Paul e Hartnett merece todo tipo de elogio. A dupla de atores tem uma química excelente, o que adiciona drama extra ao episódio. Claro, não está claro por que a ação foi transferida para os anos 60 e o que exatamente Charlie Brooker está criticando aqui, mas o episódio ficou muito forte. Torna-se óbvio que o show está cansado do conceito original e está tentando experimentar com gêneros, mas surge a questão: até que ponto isso é apropriado, quando o leitmotiv da antologia já foi estabelecido há muito tempo e as expectativas do público estão no nível do tecnoapocalipse?

Vazaram você. Procure-se no público... — 'Mazey Day' (Episódio 4)

Qual é a história?: Bo (Zazie Beetz) trabalha como paparazzi em Los Angeles em meados dos anos 2000 (o que é evidenciado por sua surpresa com a compacidade do iPod Shuffle). Após o suicídio de um ator devido à publicação de fotos provocativas, a garota decide deixar a profissão. Mas as circunstâncias forçam Bo a voltar, pois o primeiro a conseguir uma foto da atriz Mazey Day (Clara Rugaard) receberá um prêmio de 30 mil dólares. Acontece que Mazey, durante as filmagens na República Tcheca, atropelou uma pessoa sob efeito de drogas, fugiu do local do crime (e depois do país) e, além disso, sofre de transtornos mentais após o ocorrido. Fotos dela nesse estado valem ouro para os paparazzi.

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Zazie Beetz em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Se os três episódios anteriores merecem elogios, embora nem todos se encaixem no 'Black Mirror' clássico, o quarto episódio é uma exploração terrível da famosa marca. É difícil falar sobre 'Mazey Day' sem spoilers, mas, para entender, o grande twist é mais um recurso da série 'Gabinete de Curiosidades de Guillermo del Toro' do que da famosa antologia sobre pessoas e tecnologia.

Além de a ação se passar novamente no passado, o show ainda pisou no terreno do misticismo. Para onde foram os gadgets? Por que a série em 2023 critica os paparazzi? E por que Charlie Brooker invadiu o território de 'Sobrenatural'? Não há resposta para nenhuma dessas perguntas. Acontece que a terrível não era Joan, mas sim 'Mazey Day', porque o episódio é pura tapeação. Parece que o conceito original do show se esgotou e os criadores decidiram extrair todos os lucros do nome, então enfiaram no novo tudo o que encontraram. E se no segundo e terceiro episódios conseguiram desviar a atenção com uma boa história, ótimos atores e uma produção sólida, o quarto episódio é ruim por si só, e nem mesmo Zazie Beetz o salva.

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Clara Rugaard em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Em 'Mazey Day', sente-se o nível da quinta temporada. 'Black Mirror' não mostra mais o reflexo da realidade, pois foi arrancado dela, transformando-se, em vez disso, num Espelho de Eina Laje. No final, o título de 'Pior episódio (e não no aspecto místico) da temporada' vai para o quarto episódio. Resta esperar que, no futuro, os erros sejam considerados e que não vejamos mais histórias tão banais, irrelevantes e sem dentes na antologia.

Belas Maldições — 'Demon 79' (Episódio 5)

Qual é a história?: Na Grã-Bretanha de 1979, Nida (Anjana Vasan) trabalha em uma sapataria. Certo dia, durante a pausa para o almoço no porão, para onde a mulher foi mandada por causa de 'comida muito cheirosa', ela ativa um artefato que invoca um demônio ao nosso mundo. A princípio assustador, mas depois assumindo a forma de um dos membros do Boney M, o demônio Gaap (Paapa Essiedu) diz a Nida que ela deve matar três pessoas em três dias para evitar o juízo final.

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Anjana Vasan em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

Como se diz, começamos com saúde e terminamos com descanso. 'Black Mirror' e demônios. Quem poderia imaginar há alguns anos que a famosa antologia chegaria a isso. Esperamos na próxima temporada que uma família amigável compre uma casa enorme por meros trocados porque houve uma tragédia lá. As crianças escolhem alegremente os quartos, mas na primeira noite descobrem que a mansão é assombrada por fantasmas, e a família ainda assim continua morando lá, decidindo lutar contra as forças sobrenaturais. Esse futuro, ao que parece, aguarda o show.

A propósito, o episódio foi lançado com o título 'Red Mirror'. Acontece que Charlie Brooker teve a ideia de fazer uma nova temporada da antologia como um spin-off em estilo retrô, mas, aparentemente, o criador considerou que amarrar suas novas ideias a uma marca já consagrada seria um empreendimento mais lucrativo, e é por isso que o novo 'Black Mirror' não parece como todos estão acostumados. Talvez no futuro a série seja 'repintada' de outra cor, mas por enquanto esse plano parece muito duvidoso.

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Paapa Essiedu em cena da sexta temporada da série 'Black Mirror' (2023)

O episódio ficou um tanto fraco, embora seja atual. A ameaça de guerra nuclear, tão 'popular' na sociedade moderna, é mostrada através do prisma do passado. Pelo menos aqui a mudança de ação para o passado foi explicada de forma clara. Mas, no geral, o episódio quase não cativa e perde para os três primeiros em praticamente todos os aspectos. Acontece que metade da temporada foi muito bem-sucedida, enquanto a outra deixou um leve gostinho de decepção (mesmo considerando que não é o 'Black Mirror' clássico).

E no final?

A sexta temporada do show ficou bastante polêmica. Há episódios bem-sucedidos e histórias cativantes, assim como tentativas francamente ruins de mergulhar no terror. Ainda não está claro o que espera 'Black Mirror' no futuro, mas uma coisa é certa. As novas histórias claramente saem em vantagem diante da quinta temporada, que foi francamente desagradável. É melhor assistir a thrillers de qualidade e retrofuturismo do que sexo entre pessoas do mesmo sexo através de um jogo de luta.

Embora, é claro, queira-se dizer que, como 'Black Mirror', a temporada foi mais mal sucedida, pois o projeto esqueceu seu conceito original. Que Charlie Brooker fale o quanto quiser que a série não é sobre tecnologias do futuro, mas sobre o ser humano que estraga tudo, e que o show não deve ser um almanaque com tecnologias horríveis que não param de aparecer (como NFTs). No entanto, os fãs amaram a série por aquilo que ela foi originalmente concebida, e até o nome remete aos gadgets. Então, se julgarmos o show pelas últimas temporadas, a única pessoa que está estragando tudo é o próprio Charlie Brooker.