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A primeira temporada de 'Andor' terminou. Assistimos atentamente a essa série, adorada pela crítica e não tão popular entre o público, e contamos por que é um grande show e o melhor 'Star Wars' em quase 20 anos.

A ação de 'Andor' começa cinco anos antes dos eventos de 'Rogue One' e leva gradualmente a ele (prequela da prequela!) – a primeira temporada termina quatro anos antes do disparo da 'Estrela da Morte', e a segunda temporada provavelmente terminará com ele. O showrunner da série é Tony Gilroy, um roteirista talentoso e uma pessoa com posicionamento, que escreveu os primeiros e últimos episódios, enquanto o meio foi escrito por seu irmão e coautor de 'House of Cards', e todos conseguiram trazer para 'Star Wars' um pathos sombrio inesperado de revolução proletária.

A série começa tristemente – Cassian Andor (Diego Luna), um pequeno criminoso, futuro revolucionário, em um bordel iluminado por néon, procura sua irmã. Não a encontra, mata policiais, voa para casa, perde tudo e foge. A trama, que lembra os clássicos do noir e cyberpunk, ganha nos primeiros três episódios detalhes aconchegantes – um droide enferrujado cuida da idosa mãe de Andor, Maarva (uma aposentada doente que sonha com a revolução, um papel marcante de Fiona Shaw), seu melhor amigo tenta cobrar suas dívidas, sua ex-namorada tenta entender. Cassian é perseguido por um policial ridículo (Kyle Soller, um dos novos heróis mais curiosos da franquia), e é salvo por um homem sombrio de aparência escandinava, Luthen Rael (Stellan Skarsgård no papel do ambíguo líder da revolução). Ele mesmo não entende como acaba envolvido na política mundial, que por tanto tempo evitou cuidadosamente.

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Cena da série 'Andor'

Nos episódios seguintes, como parte de uma equipe de revolucionários não muito bem-sucedida, Andor participa de um assalto a um posto imperial nos confins do mundo, vai a tribunal, para a prisão, se enrola, sai de todos os lugares como uma pessoa um pouco diferente, e ele ainda tem sorte – alguns não saem de jeito nenhum. A sensação de que tiveram sorte os que sobreviveram permeia a primeira metade da temporada – fugindo, atirando, sem pensar no amanhã, os heróis não tanto vivem, mas sobrevivem, e ainda assim ficam felizes com isso. E após a primeira metade, já se quer chamar 'Andor' de excepcional e renová-la por mais três temporadas, mas é apenas na segunda parte que a série adquire, se assim podemos dizer, grandeza autêntica, se revela em toda sua beleza triste.

Os heróis, por diferentes razões, param de correr e começam a sofrer silenciosamente, e é nesse desespero melancólico que se vê o que, ao que parece, motivou a criação do show. Não é uma história sobre super-heróis que enfrentam o mal abstrato, aqui não há Siths nem Jedi, apenas rebeldes ideológicos que sonham com a liberdade e nem sempre conseguem concordar entre si.

Rael acredita que a repressão levará à revolta, a triste Mon Mothma (a brilhante Genevieve O'Reilly), que sempre aparecia nos filmes em algum terceiro plano, tenta adaptar o imperativo categórico a um mundo onde as categorias se confundiram, e do imperativo restou apenas um Império, e outro velho conhecido nosso, Saw Gerrera (Forest Whitaker), pensa em um futuro onde também não é tão simples. A escuridão opressora do cotidiano não se dissipa aqui com clarões de sabre de luz, e até os blasters atiram de forma mais abafada. E em algum momento, assistir aos horrores do fascismo se torna muito mais assustador do que ouvir a respiração de Darth Vader.

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Cena da série 'Andor'

'Andor' não é exatamente sobre luta, mas sobre impotência, sobre a sensação de que nada pode ser feito e não vale a pena tentar. Por isso é especialmente triste assisti-lo dublado – nos momentos dos monólogos dos heróis, pode parecer que as vozes dos compatriotas apenas estão lendo colunas do 'Novaya Gazeta', tamanha a paleta familiar com que a galáxia muito, muito distante é desenhada desta vez. Lá tudo está ruim, há um imperador, manifestações são dispersadas e a vida humana não vale nada. As cenas na prisão lembram a prosa dos campos de concentração, e em liberdade, os romances de Dostoiévski. Não no sentido de que Deus existe, mas no sentido de que ele não aparece há muito tempo.

Ao contrário de 'Boba Fett' e 'Kenobi', que a partir do meio da temporada passam das palavras à ação e trocam diálogos por ação, 'Andor', embora contenha muitas cenas caras e bem coreografadas de lutas, tiroteios e fugas, nunca realmente se concentra nelas. Não é tanto uma série, mas um manual de filosofia política, no qual cada herói profere seu monólogo na hora designada.

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Cena da série 'Andor'

Luthen Rael fala sobre os horrores da luta, Maarva Andor sobre a necessidade de resistência (seus discursos pungentes – o primeiro e o irado segundo – bem que poderiam ser emoldurados, não menos graças a Shaw, frágil e decidida ao mesmo tempo), o anarquista Nemik descreve os mecanismos do totalitarismo, e o líder dos prisioneiros, Kino Loy, fala sobre o anseio pela liberdade. Há alguns anos, todas essas teses interessantes, sem dúvida, vindas de um grupo tão heterogêneo, poderiam parecer perda de tempo – afinal, já parecia claro que a liberdade é melhor que a não liberdade. Mas nem todos entenderam, e neste exato momento, nada parece mais importante do que esses discursos.

O pathos revolucionário de 'Andor' alegra e às vezes impressiona – não é tão frequente ver, em séries financiadas por capitalistas, verdadeiros anarquistas kropotkinianos (Alex Lawther, um rosto de estrela indie americana como Diego Luna, o que é verdade em solidariedade!), uma crítica sofrida ao colonialismo e um desejo desesperado de liberdade.

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Cena da série 'Andor'

'Andor' não foge aqui de um simbolismo óbvio, mas funcional: a poligonalidade do emblema imperial se reflete nos locais de trabalho, nos contornos da prisão, nos vãos das portas (observe as portas no apartamento de Mon Mothma) – em algum momento, parece que até a moldura do quadro assumirá a forma de um octógono, e isso, claro, seria um gesto. Ao mesmo tempo, no planeta Ferrix, tudo, de uma forma ou de outra, acontece ao som de sinos – no primeiro episódio eles chamam para o trabalho, no último, para a revolta. Os roteiristas também não se envergonham do paralelismo de imagens. Por exemplo, os mentores de Andor são duplos na trama – Luthen Rael e Kino Loy (Stellan Skarsgård e Andy Serkis, ao que parece, igualmente grandiosos) – ambos defendem uma liberdade que não verão.

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Vigilância eterna, perseguição incessante, sentença de prisão interminável, luta perdida de antemão – 'Andor' mostra o mundo cruel de um estado totalitário: os mortos aqui não têm liberdade de expressão (o funeral no final entrará para o cânone das melhores cenas de 'SW'), os vivos não têm direito à dignidade. Paisagens escapistas e interiores futuristas, alienígenas extravagantes e suas civilizações extravagantes acabam se somando a uma realidade estranhamente familiar à beira da desintegração, para a qual a possibilidade de felicidade, ao que parece em algum momento, está perdida para sempre.

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Cena da série 'Andor'

Claro, na América ou no Reino Unido, essa série é vista de outra forma, se é que era necessária para fins educacionais para alguém, seria para os bisavós dos atuais fãs de 'Star Wars', mas na Rússia, se na série o sino toca tão insistentemente – está claro que ele toca por você. Talvez isso não seja muito consolador, mas a série não pode ser chamada de totalmente sombria. Ao mostrar que tudo o que foi, foi em vão, 'Andor' deixa espaço para a esperança de que tempos melhores virão e pessoas melhores virão, e que neste novo mundo, 'Star Wars' será muito 'great again'.