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A 24 de fevereiro, estreou nos ecrãs o filme «Cyrano» de Joe Wright, que deu vida a uma obra já há muito considerada clássica. Mas se esta ideia resultou num filme cativante é outra questão. E é a essa que vamos responder.

Cyrano de Bergerac não é bonito. Pelo menos, ele próprio pensa assim. Não tem altura, mas é destemido, inteligente e encantador. E mesmo possuindo essas qualidades, não acredita que a bela por quem está apaixonado possa amá-lo. Ela, por sua vez, está apaixonada por um companheiro de armas de Cyrano e pede que ele cuide do rapaz. Os homens conhecem-se, nasce uma amizade entre eles, e o companheiro pede a Cyrano que o ajude com as cartas para a bela.

Cyrano 2022

É aí que começa o paralelo mais interessante com a modernidade. No filme, tal como na peça, a ação decorre no século XVII, mas a ajuda de Cyrano ao colega com as cartas cria algo semelhante ao que temos hoje. Já usei aplicações de encontros várias vezes, e muitas vezes aconteceu de, ao encontrar a pessoa, ela ser completamente diferente do que era na troca de mensagens. No fundo, a bela apaixona-se não pelo próprio companheiro, mas pela imagem dele criada pelas cartas. Como se, hoje em dia, duas pessoas numa aplicação de encontros se apaixonassem por imagens falsas uma da outra. Mas então surge a questão: o que é mais importante, a imagem que a pessoa cria, ou a própria pessoa? O realizador Joe Wright dá uma resposta inequívoca no filme.

Filme Cyrano

E embora o filme levante questões interessantes sobre a natureza da interação entre as pessoas, acaba por cansar um pouco. É visualmente bonito, os figurinos e os cenários são de louvar. Só a bela já é de tirar o fôlego. E as canções — afinal, é um musical — são muito bonitas. É pouco provável que alguém vá ouvir a banda sonora separadamente, mas vale a pena destacar Peter Dinklage, que já nos tempos de «A Guerra dos Tronos» fazia números musicais memoráveis.

Mas há uma certa sobrecarga em tudo isto, que acaba por cansar. A história segue um caminho já batido, que já vi muitas vezes (mesmo sendo uma adaptação da peça), e a certa altura começamos a olhar para o relógio à espera que o filme acabe. O desfecho é claro e óbvio, mas é apresentado demasiado tarde, quando o filme já conseguiu aborrecer consideravelmente.

Trailer: