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Assistimos ao blockbuster de Zack Snyder “Exército dos Mortos” e analisamos onde a abordagem inovadora ao terror zumbi falhou.

Em 2021, Zack Snyder voltou à cadeira de diretor e, logo após a estreia da original “Liga da Justiça”, em parceria com a Netflix, lançou “Exército dos Mortos” (Army of the Dead). Como lembramos, a carreira de Snyder começou com o remake de “O Despertar dos Mortos”. E agora, 17 anos depois, ele retorna à temática zumbi, só que desta vez com uma pitada de humor.

“Exército dos Mortos” é o segundo filme em que Zack atua como roteirista, além de figurar como produtor e diretor de fotografia, filmando muitas cenas com a atenção meticulosa de um criador. A Netflix deu total liberdade ao icônico cineasta para as filmagens do novo longa, e por isso veremos a versão do diretor e única do filme (sobre o qual ele brincou em várias entrevistas).

Assistir Exército dos Mortos

“Exército dos Mortos” não tem vergonha de usar clichês do gênero. Devido a um descuido militar, o mundo se vê ameaçado. Um dos experimentos escapa e ataca os soldados, gerando uma horda de zumbis sangrentos. Rápidos e dotados de força física desenvolvida, os mortos-vivos tomam Las Vegas. Para retirar uma quantia vultosa de um cofre escondido nas entranhas da cidade destruída, Bly Tanaka (Hiroyuki Sanada), empresário e dono de cassino, contrata uma equipe liderada pelo mercenário e ex-militar Scott Ward (Dave Bautista). O plano desmorona, os zumbis aprenderam a pensar e se dividiram em grupos sociais, e o governo está prestes a lançar uma arma nuclear sobre Las Vegas no Dia da Independência. E parece que está tudo ótimo. Mas o que há de errado com essa história?

Exército dos Mortos 2021

Pão e circo!

“Exército dos Mortos” tem potencial, mas falta carisma. Não basta construir um filme de entretenimento sobre a base de ação e cenas de luta; é importante envolver tudo isso em torno de um personagem central atraente, cujo carisma não está no repertório de Bautista. Dave Bautista agradou ao público complementando a equipe estelar em “Guardiões da Galáxia”, e ele se encaixaria harmoniosamente no círculo do “Esquadrão Suicida”, do qual abriu mão para filmar “Exército dos Mortos”, mas no novo terror zumbi de Zack Snyder ele se perde entre os personagens secundários. Coloque Dwayne Johnson à frente do elenco — e o filme se tornaria várias vezes mais energético e encantador.

Poderíamos chamar “Exército dos Mortos” de um filme pomposo se houvesse mais paixão: a expectativa tensa do horror (um pouco mais de cenas de terror), um drama familiar profundo (não ressentimentos adolescentes), ou pelo menos a preocupação dos heróis com seus companheiros. Fiquei impressionado com a cena no meio do filme, em que a ajudante do atirador Chambers (Samantha Win) se defende de um par de zumbis (e com sucesso!), mas a equipe vai embora dizendo “ela já era” antes mesmo de a multidão sanguinária se aproximar do barulho. Fiquei com a impressão de que foi um erro de montagem, a frase soou antes e antecipou os acontecimentos. A absurda desvalorização das vidas dos heróis faz com que o espectador também não se importe se os heróis sobreviverão ou se juntarão às fileiras dos mortos.

Exército dos Mortos de Zack Snyder

Novos e antigos truques de Zack Snyder

Cada novo filme de Zack se destaca pela abundância de câmera lenta, mas a característica visual do filme “Exército dos Mortos” é inesperadamente o desfoque do fundo, o efeito bokeh, fazendo com que agora cada espectador possa imaginar como vivem as pessoas com visão -8 sem óculos ou lentes. Por causa disso, “Exército dos Mortos” perde uma parte importante do visual — o colorido da destruição e do apocalipse, pelo qual nos envolvemos avidamente com ficção científica e filmes de ação de aventura, filmes sobre civilizações extraterrestres ou tragédias terrestres.

O tiro que não saiu pela culatra

Dizem que montanhas de ossos ressecados sob o sol escaldante podem ganhar vida com a chuva, e uma motosserra imponente de um dos mercenários vai picar não uma dezena de zumbis, mas as regras introduzidas no início do filme e as expectativas criadas artificialmente para desenvolvimentos da trama permanecem apenas insinuações e fofocas entre os personagens. A Arma de Chekhov nunca disparará, o espectador não será agraciado com uma reviravolta na trama e será deixado com uma longa lista de instruções inúteis sobre como este universo funciona, enquanto a duração do filme compete com os filmes de super-heróis de Zack Snyder.

Exército dos Mortos Netflix

O outro lado da moeda

O desenvolvimento do cinema e a abundância de caminhos roteirísticos já trilhados levam os diretores a olhar para as coisas habituais de uma nova maneira. Os zumbis já não inspiram mais medo, tornando-se objeto de conversas, como no terror cômico “Os Mortos Não Morrem”, ou criam suas próprias comunidades em “Exército dos Mortos”. E enquanto isso não se tornar mais um padrão batido, o espectador terá curiosidade em observar ideias novas e será fácil perdoar os inovadores por diálogos fracassados ou falhas no roteiro.

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Roman Kovalev
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O humor salvará o mundo (e o cinema)

Até a história mais manca e plana ganha charme se você adicionar uma pitada de humor. “Exército dos Mortos” se baseia na ironia: aqui, lutadores musculosos de regata contra zumbis que só querem uma coisa — cravar os dentes em qualquer parte exposta do corpo, um abusador com uma pistola-termômetro, piadas sobre racismo e universos paralelos, e a música final dos Cranberries — Zombie.

Em “Exército dos Mortos” há o que ver, como algumas cenas de multidão que lembram pinturas do período moderno; uma cena marcante e agressiva como um animal de ataque de um tigre zumbi; o filme tem do que rir para o espectador não exigente, o novo filme de ação de Snyder não é vergonha de assistir num clima leve e numa companhia brincalhona. Enquanto “Exército dos Mortos” diverte despretensiosamente o público em massa, os apreciadores só podem esperar que ideias ousadas sejam tocadas pela mão de um roteirista talentoso, e que no gênero do terror zumbi não trivial surja finalmente um cinema de qualidade e pensado nos mínimos detalhes.

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