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Steven Spielberg voltou a abordar o tema com o qual, na verdade, construiu sua carreira — o contato com vida extraterrestre. Só que desta vez, nada de E.T. bonzinho com o dedo brilhando no escuro, nem música tranquilizadora de John Williams sob o céu estrelado (Williams está presente, mas o clima aqui é completamente diferente). "Dia da Revelação" (Disclosure Day) é mais um thriller político nervoso, onde os alienígenas não são os visitantes, mas o motivo para a humanidade finalmente olhar para si mesma. E, a julgar pela forma como o público e a crítica debatem ativamente o final do filme, Spielberg conseguiu cativar muito mais do que apenas fãs do gênero.

Atenção: a seguir haverá spoilers do final de "Dia da Revelação" — se você ainda não viu o filme, mas pretende ver, é melhor voltar a este artigo depois da sessão.

Sobre o que é o filme "Dia da Revelação"

Cena do filme
Cena do filme "Dia da Revelação"

No centro da trama está o ex-especialista em segurança cibernética da corporação Wardex, Daniel Källner (Josh O'Connor), que decide roubar um arquivo secreto provando que a humanidade está em contato com vida extraterrestre desde o acidente de Roswell em 1947, e que a Wardex é a estrutura que, por quase 80 anos, encobre todos os vestígios.

Paralelamente, desenvolve-se a história da meteorologista de Kansas City, Margaret Fairchild (Emily Blunt), que de repente, durante uma transmissão ao vivo, emite estranhos sons de clique e desmaia.

Daniel e Margaret são unidos não apenas pela perseguição dos agentes da Wardex, liderados pelo frio como um iceberg Noah Scanlon (Colin Firth). Acontece que ambos foram "marcados" pelos alienígenas ainda na infância — no mesmo dia, 23 de fevereiro de 1996 — e receberam habilidades especiais através de um misterioso artefato, que no filme é chamado, sem originalidade, de Dispositivo.

A filosofia do filme é simples, mas apresentada com o típico estilo grandioso de Spielberg: o medo do desconhecido é mais destrutivo do que o próprio desconhecido, e a verdade, mesmo a mais inconveniente, é a única maneira de não cair em outra guerra mundial, ainda mais porque, na trama, o planeta já está à beira de um conflito no nível DEFCON 2.

O que aconteceu no final

Cena do filme
Cena do filme "Dia da Revelação"

O clímax acontece na emissora de TV KCXE em Kansas City, onde Daniel e Margaret, junto com uma equipe de resistência liderada por Hugo Wakefield (Colman Domingo), tentam transmitir ao vivo décadas de materiais confidenciais da Wardex. Antes disso, Hugo recria no estúdio o quarto de infância de Margaret, para que, através do Dispositivo, ela possa desbloquear suas memórias reprimidas — e descobre-se que os alienígenas, na forma de criaturinhas inofensivas, levaram tanto ela quanto Daniel para sua nave na infância, concedendo a ambos dons especiais: a Margaret, telepatia e conhecimento de todas as línguas do mundo; a Daniel, uma mente matemática capaz de decifrar a lógica não humana.

Os agentes da Wardex, é claro, não ficam de braços cruzados e cortam a energia do estúdio no pior momento, mas Margaret, com a ajuda do Dispositivo alienígena, restaura a luz da estação, e o arquivo, filmado e montado por Daniel durante anos de trabalho disfarçado, vai ao ar. A transmissão se espalha instantaneamente pelo mundo — pessoas diante de telas de TV e smartphones testemunham que o segredo do contato com vida extraterrestre foi escondido por quase 80 anos.

Em seguida, um alienígena de verdade é trazido para o estúdio — uma criatura com o codinome In Vivo 17. Ele transmite a Daniel uma rápida sequência de cliques e sinais binários — na verdade, um pacote inteiro de dados, emoções e conceitos que, graças às "vacinas" da infância, ele consegue decifrar quase instantaneamente. Daniel sussurra a tradução no ouvido de Margaret, ela volta para a câmera — e pronuncia para toda a humanidade, paralisada diante das telas, uma única palavra: "Escutem". Depois disso, a tela escurece e começam os créditos finais.

O que isso significa e por que Spielberg está em silêncio

Cena do filme
Cena do filme "Dia da Revelação"

O movimento mais provocador do filme é que o espectador não fica sabendo o que exatamente Daniel ouviu do alienígena — apenas o "escutem" final, dirigido literalmente a todos. A julgar pelos materiais complementares e entrevistas com os criadores, os alienígenas aqui consideram a empatia a principal vantagem evolutiva da espécie, e sua ausência, um caminho direto para a autodestruição.

Ou seja, a mensagem não está em uma tecnologia específica ou em um aviso de invasão, mas na capacidade banal, porém eternamente ilusória, de ouvir uns aos outros — o que, de certa forma, alude tanto à divisão política dentro do próprio filme quanto ao mundo real fora da sala de cinema.

Spielberg demonstradamente se recusa a decifrar a fala final mesmo em entrevistas, declarando que "nunca vai revelar", e os atores, que sabem a tradução exata, estão ligados a um acordo de silêncio.

Essa falta de explicação é apresentada como um recurso, não um defeito. O diretor parece sugerir que cada espectador imagine por si mesmo o que a humanidade recebeu no último segundo antes dos créditos — uma mensagem otimista de união ou um último aviso antes da catástrofe. Considerando que o espectro de uma guerra mundial iminente está sempre presente no filme, ambas as interpretações parecem igualmente plausíveis.

De qualquer forma, "Dia da Revelação" é um caso raro em que um final aberto não parece uma fraqueza dos roteiristas, mas se torna um tema importante para conversa após a sessão. E se você sentiu que faltou algo — talvez você ainda não tenha aprendido a ouvir.