"A juventude com seus computadores vai parar de se reproduzir!"

Por volta de 2007-2009, nosso velho PC caseiro com monitor CRT e disquetes foi substituído pelo primeiro computador decente com acesso constante à internet e unidade de CD-RW. Com sua chegada, começou toda uma era: comprar CDs piratas de jogos em embalagens plásticas fedorentas, os primeiros torrents, Call of Duty 2 e Battlefield Bad Company 2. Eu e meus colegas de classe nos reuníamos constantemente e jogávamos online juntos, e quando íamos visitar uns aos outros, jogávamos juntos no mesmo computador ou apenas assistíamos o outro jogar "até morrer" para trocar de lugar. Foi uma época maravilhosa! Mas a história não é sobre memórias agradáveis da infância.

Meus pais, vendo nossos hobbies na época, brincavam: "Logo a juventude com seus computadores vai parar de se reproduzir". Eu sempre ignorava e achava que era resmungo de velho (embora eles nem tivessem quarenta anos na época, qualé).

Acontece que realmente estão parando. A trama se desenrolou como se fosse de um episódio de "Black Mirror": hoje as pessoas criam namorados e namoradas de IA, apegando-se emocionalmente a eles. É importante notar que não são indivíduos isolados com problemas de cabeça — o fenômeno é massivo.

A escala das plataformas com esses parceiros de IA é impressionante. De acordo com dados da Harvard Business Review: XiaoIce — 660 milhões de usuários, Character.AI — 28 milhões de usuários ativos, Chai — 4 milhões ativos, Replika — 2,5 milhões ativos. Isso, claro, não significa que todas essas centenas de milhões de pessoas estão em relacionamentos com IA, mas há uma ressalva importante. Outra pesquisa — da Common Sense Media, realizada nos EUA — mostra que entre os adolescentes, 72% já experimentaram companheiros de IA, 9% os descrevem diretamente como "amigo ou melhor amigo", 8% os usam para relacionamentos românticos ou flerte, e 33% discutiram questões sérias ou importantes com a IA em vez de pessoas reais.

E isso não é tudo. Por exemplo, um artigo no Guardian fala sobre usuários que sofreram muito com a atualização do ChatGPT para o GPT-5, porque já haviam se apegado à versão antiga, que, segundo eles, os conhecia e entendia melhor. Citações diretas de lá: "é como terminar com um namorado", "como se estivesse me despedindo de alguém conhecido". Outro material — da Reuters com o título sugestivo "O que fazer se seu chatbot de IA parar de corresponder ao seu amor?" — é dedicado à reação forte dos usuários do Replika depois que o desenvolvedor removeu a possibilidade de interação erótica: "a pessoa que eu conhecia não existe mais", embora se trate exatamente de um avatar de IA. Os usuários observam que a IA os entende e conhece muito melhor do que os entes queridos reais.

Isso não são apenas notícias estranhas do mundo da tecnologia nem uma coleção de pessoas com problemas mentais. É um fenômeno cultural surpreendente e aterrorizante — praticamente o espírito do tempo. O cyberpunk chegou. E é exatamente sobre isso que quero falar no próximo post, que desenvolverá essa ideia.

Por enquanto, pergunto a vocês: quão próximo você está da sua IA?